Retrospectiva 2015

Papetes no céu - ou na beira da piscina do Parque Lage, no Rio, meu lugar predileto na cidade <3. Fotos: Débora Costa e Silva

Papetes no céu – ou na beira da piscina do Parque Lage, no Rio, meu lugar predileto na cidade

Fim de ano é a hora que fazemos um balanço geral das conquistas, decepções e realizações dos últimos 12 meses. Sei que 2015 não foi fácil por N motivos para muita gente e para mim não foi diferente. Mas uma coisa eu tenho muito a agradecer: as oportunidades de viagens que tive e que salvaram alguns momentos difíceis.

E, claro, deixando o drama de lado, também tiveram aquelas que apareceram em momentos bons e que serviram para celebrar a vida! Enfim, como diria o Rei, “se chorei ou se sorri, o importante é que emoções eu vivi!”.

Mas de todos os acontecimentos de 2015, um deles é especial: ter dado vida a este blog, que ficou anos no armário esperando eu deixar de ter vergonha e começar a escrevê-lo. Parece bobagem, mas era tão importante pra mim que virou um bicho de sete cabeças e eu comecei a colocar obstáculos que foram afastando a ideia. Afinal, tem tanta coisa incrível por aí na internet que quando eu pensava em fazer algo meu, achava que tinha que ser no mínimo foda.

Aos poucos fui me libertando dessa piração e resolvi apenas fazer, com a única pretensão de me divertir e registrar histórias dos bons momentos das viagens. E bom, rolou e estamos aí, devagar e sempre alimentando esse espaço com relatos, lembranças, inspiração e curiosidades! Que venham muitos posts pela frente! ❤

Pra celebrar, separei fotos dos lugares bacanas que visitei este ano! Em alguns tem posts relacionados, é só clicar nas palavras que estão em verde. Espero que gostem e aproveitem para relembrar das suas próprias viagens – ou quem sabe ter ideias para as próximas, já que 2016 taí 😉

Arraial do Cabo – RJ

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Que lugar mais lindo! Já tinha visto em fotos o mar de cor azul-Caribe, mas não imaginava que pudesse ser assim tão impressionante! Minha família alugou casa lá e foi otimo: fomos em diversas praias e fizemos um passeio de barco imperdivel! Em breve escrevo sobre essa viagem por aqui!

Guaratuba – SP

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Praia da minha infância e das minhas melhores lembranças. Foi numa dessas incursões familiares que aproveitei para matar as saudades desse mar gostoso de águas calmas durante a Páscoa. O post sobre esta praia de Bertioga, onde minha família tem casa há mais de 25 anos, já está no forno, com direito a fotos antigas e tudo!

Rio de Janeiro – RJ

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Tento passar uma semana no Rio pelo menos uma vez ao ano e acho pouco. Cada vez que vou tento conhecer algum lugar novo e ainda faltam vários da lista, mas esse ano consegui finalmente ir a um dos mais importantes: o Cristo Redentor! Acabei repetindo lugares deliciosos, como o Parque Lage e o bairro de Santa Teresa porque também curto essa sensação de familiaridade. Rio, te quero mais!

Bariloche – Argentina

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Foi minha terceira visita a essa cidade fofa da Argentina, uma pena que não deu para esquiar. Mas fiz coisas diferentes, como esse passeio de motinho pela neve, conheci um refúgio no alto da montanha incrível (ainda virá post sobre isso) e, claro, muita comilança, bons vinhos e paisagens fantásticas. Mas o momento mais querido foi encontrar novamente o Marito, dono de uma das lojas mais antigas de Bariloche, e entrevistá-lo pro blog.

Paraty – RJ

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Conheci finalmente a cidade da Flip, durante um bate-volta de Ubatuba. Passei o fim de tarde por lá fotografando e me equilibrando nas pedras das ruas da cidade e me encantando por sua beleza, suas cores e todo o charme que eu só conhecia por fotos. Ficou o gostinho de quero mais. Vamos ver se volto em breve para explorar Paraty com calma, porque merece!

Atacama – Chile

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Minha segunda vez no Atacama foi incrível e sob uma nova perspectiva: não mais como jornalista convidada, mas como assessora de imprensa acompanhando um grupo de repórteres. Foi trabalho, mas também foi lazer, e vi paisagens diferentes como essa do Vale da Morte – da outra vez não cheguei a ver esse penhasco -, as Termas Puritanas, os Gêiseres del Tatio e a noite de observação das estrelas. Conheci também um jovem guia cheio de sonhos e projetos de viagens que virou post aqui.

Santiago – Chile

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Entre idas e vindas, consegui curtir um pouquinho de Santiago em uma tarde. Caminhei do bairro Lastarria até onde fica o Mercado, passando por um parque super gostoso. Mas curti mesmo o bairro Lastarria, seus barzinhos e lojinhas bacanas. Santiago nunca foi meu destino final, sempre estive de passagem, quero ver se em 2016 eu mudo essa história! 😉

Torres del Paine – Chile

Vista das Torres del Paine, na Patagônia chilena. Foto: Débora Costa e Silva

Realizei um sonho ao conhecer mais esse pedaço da Patagônia, um dos mais bonitos, especiais e remotos. Ao ficar hospedada no Tierra Patagonia, a sensação era de estar abraçada pela natureza: no café da manhã, vi ovelhas e guanacos pela janela e a sensação de estar no fim do mundo bateu – com toda sua beleza e seus temores. As torres acabei vendo só de longe, agora é mais uma desculpa para voltar pronta pro trekking e ver esse monumento de pertinho! Escrevi também sobre o guia-motorista Antonio, que fez reflexões profundas sobre viver por essas bandas.

Pucón – Chile

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Não conhecia nada do meio do Chile, só os extremos, e adorei Pucón! Confesso que não foi fácil: teve muita chuva, muito frio, fiquei doente e voltei com dor de ouvido no avião. Mas valeu muito a pena, o lugar é lindo, o hotel Antumalal (na foto), incrustado na montanha, tem alguma coisa mágica que nos faz relaxar e ficar em frente à lareira lendo um livro e esperando a chuva passar era tudo o que eu estava precisando.

Tenho mais uma viagem este ano para celebrar a virada, depois venho aqui contar! Ano que vem volto com fotos e posts e desejo a todos um fantástico 2016, repleto de boas energias, ótimas experiências e muitas viagens! ❤

Travel Tattoo :: Bruna Caricati

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Fotos: Arquivo pessoal da Bruna

Há quem goste tanto de viajar que dá um jeito de transformar toda sua vida em função de suas andanças. Uma autêntica nômade digital, a jornalista Bruna Caricati, 26 anos, já morou em cinco países e não pretende parar tão cedo de rodar o mundo. As aventuras começaram já na faculdade: morou um tempo na Espanha e no final do curso foi para Guiana Francesa para escrever um livro-reportagem sobre o país. Depois de formada, mudou-se pra Londres, em seguida para Itália, Bélgica, Uruguai… ufa!

Há cinco anos ela mantém o blog Go to Gate, onde entre um relato e outro ela dá dicas ótimas e bem práticas de viagem, e agora escreve também para o site Brasil Post, ao mesmo tempo em que faz frelas e planeja os próximos embarques – e as próximas tatuagens também. Bruna tem duas relacionadas com viagens e conta aqui quais foram suas inspirações:

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Quantas e quais são as tatuagens que você tem?
Tenho duas: no ombro tenho uma rosa dos ventos com um avião de papel saindo dela e um on the road escrito no braço com letra de máquina de escrever.

Quando e onde foram feitas?
A primeira que fiz foi a rosa dos ventos. Fiz com o super tatuador Victor Octaviano, que conheci por causa de uma reportagem que fiz com ele. A ideia era fazer essa tatuagem naquele modo aquarela, mas ele me convenceu de que seria melhor não fazer assim. Confiei e deixei ele fazer do jeito que achava melhor. No fim, amei o resultado e saiu muito melhor do que a ideia que eu tinha em mente.

Essa tatuagem fiz quando voltei da Bélgica, onde morava no momento, e estava em São Paulo visitando minha família antes de me mudar para o Uruguai. Como eu estava numa fase de transição decidi fazer essa tatuagem para simbolizar minha vida, que, naquele ano, era nômade e eu estava sempre mudando de lugar.

A rosa dos ventos representa isso para mim, uma direção que me leva a uma nova vida. Uma direção aleatória e incerta – que é isso que me deixa feliz: não ter destino certo, não ter planos.  O aviãozinho de papel era só um chame a mais, pois foi um ano que peguei incontáveis voos.

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Já o on the road fiz quando voltei do Uruguai e me estabeleci de novo em São Paulo. Tem vários significados. Um: sim, é por causa do livro. Primeiro porque é um livro que gosto muito e sou meio viciada em Jack Kerouac no geral. Acho que o livro “On the Road” marcou uma geração de jovens aventureiros e é onde vejo a inspiração para cair na estrada sem rumo, sem planos, que é o que fiz.

A tipografia da minha tatuagem é imitando letras de máquina de escrever, porque, bom, sou jornalista e escrever faz parte da minha vida. E o outro significado é o literal: on the road, que é o que faço e quero fazer pro resto da minha vida.

Como foi a escolha do desenho que ia tatuar?
A rosa dos ventos eu vi em pesquisas no Google, mas pesquisei pelo desenho dela mesmo e não por tatuagens. Levei para o tatuador e ele trabalhou a ideia dele em cima da imagem que eu levei. Criamos um desenho novo, fugindo um pouco do formato real. Ele deu uma pirada na ideia e eu aceitei.

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O on the road veio da minha cabeça, não vi em nenhum lugar. O tipo de letra também (de máquina de escrever), mas o tatuador que pesquisou a tipografia e me mostrou algumas sugestões.

O que te inspirou a fazer?
Sempre quis fazer uma tatuagem, mas não sabia o que me inspirava, o que era uma motivação na minha vida. Morar forar, ser nômade por um tempo me transformou e eu vi que a minha vida é isso. Então, decidi que minhas tatuagens deveriam representar essa essência da minha vida.

Tem planos de fazer outras? Quais e por quê?
Sim! Em breve quero fazer uma outra, que também é escrita. Estou entre um poema do Robert Frost e um do Bukowski. Uma diz “Miles to go before sleep” e outra diz “If you’re going to try, go all the way. It’s the only good fight there is“. Mas não sei ainda. Acho que essas são bem batidas, porém, representam coisas importantes pra mim.

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E você, tem alguma tatuagem que tenha sido inspirada por alguma viagem? Conte a sua história também! Mande para papetespelomundo@gmail.com

Veja mais posts da série Travel Tattoo!

Amsterdã :: Rolê de bike

Bikes estacionadas no Vondelpark, em Amsterdã. Fotos do post: Débora Costa e Silva

A capital da Holanda é reconhecida por ter a magrela como um dos meios de transportes prioritários – e todo mundo já ouviu falar disso de algum jeito, seja em matérias na TV, em revistas de viagem ou até lembra de uma novela da Globo que o casal ia pra lá fazer intercâmbio. Por ter começado a andar de bike em São Paulo, me empolguei em relatar essa minha experiência e complementar a série de posts sobre Amsterdã.

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Eu e a Luana, minha irmã companheira de viagem, deixamos o rolê pro terceiro e último dia, quando estávamos mais íntimas da cidade – e já habituadas em ouvir as buzininhas de sininho de alguns ciclistas quando acabávamos atrapalhando o trânsito deles. Aliás, essa foi a maior e acho que única dificuldade por lá. É muita, muita, muuuuita bicicleta!

É lindo? Claro que é – mas dá um pouco de medo. Ainda mais pra quem anda de bike de vez em nunca – como era o meu caso. Quase não dá tempo de relembrar como é mesmo que funciona o negócio, porque rapidinho você já tem que entrar no fluxo e no ritmo da galera. E dá-lhe sininhos na orelha te acelerando! Até pra minha irmã, que anda bastante de bicicleta no Rio, rolou uma estranheza com o congestionamento.

Mas passado o primeiro impacto, eu logo me acostumei e comecei a curtir. A cidade é plana, as ciclovias estão em ótimas condições, tem sinalização, enfim, tudo contribui para circular por Amsterdã tranquilamente sobre duas rodas.

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E a sensação é de dominar a cidade! Eu senti um misto de liberdade com poder, explorando aquilo tudo com uma intimidade e confiança como se eu já conhecesse tudo por ali! É isso, a gente se sente parte do lugar, rola uma integração muito forte que é até difícil de explicar.

E se por um lado a quantidade de bikes assusta, por outro é o que faz a experiência ficar ainda mais bacana, porque você está sempre acompanhado. Mesmo tarde da noite, você cruza com uma galera de bike pra cima e pra baixo, rola uma cumplicidade. Sem contar o fator segurança: aqui em São Paulo eu até ando à noite, mas to sempre alerta e evito lugares muito desertos – quando não tem jeito, acelero o máximo que dá. Em Amsterdã isso não é problema, né? Uma preocupação a menos, que faz com que a experiência fique ainda mais leve e prazerosa.

Tá, legal, mas e aí, vamos ao que interessa?

Num dos primeiros passeios pela cidade já vimos várias bikes vermelhinhas da MacBike, que aluga bicicletas, e recorremos a ela. Acho que deve ser a loja mais famosinha mesmo por lá. Fechamos um pacote de 24 horas para não termos que nos preocupar em ter que devolver com pressa e também porque valia mais a pena financeiramente. Dei uma olhada no site e esse período custa cerca de 15 euros – enquanto 3 horas já dão 11 euros. Resolvemos também pagar o seguro, que era de 3 euros por dia pra nos prevenir de possíveis inconvenientes, escolhemos a bike e pronto! Vamos ao pedal! \o/

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As bicicletas estavam em ótimo estado e foi super tranquilo de manusear, mesmo para quem, como eu, não brincava de pedalar há uns bons anos. Eles deram dois tipos de trancas: um cadeado e uma corrente pra poder enganchar quando for estacionar. E para ter uma ideia da segurança, estacionamos nossas bikes à noite na rua, em frente ao hotel, e tudo bem: acordamos e lá estavam elas, bonitinhas, no mesmo lugar, sem pneu furado, tudo perfeito. Pode parecer desnecessário, mas acho importante ressaltar isso. É tranquilo, confie 😉

Por onde andei

Pegamos nossa bike na loja mais próxima, que no caso era a MacBike da Central Station, e seguimos para o Rijksmuseum. Após passar por vários canais, estacionamos em frente ao museu e fomos dar uma volta e ver as exposições em cartaz.

Depois seguimos para a praça onde tem aquele letreiro gigantesco IAmsterdã e ficamos ali um tempão na beira do lago, tomando sol e aproveitando o wi-fi (sim, também somos filhas de Deus).

De lá fomos ao Vondelpark, que fica pertinho e onde foi uma delícia pedalar. Deitamos na grama e passamos a tarde ali curtindo um som, na sombra, no maior clima de piquenique, com direito a hot dog e muffin à la Amsterdã de sobremesa :P.

Por fim, fomos tomar um café ali perto pra dar uma acordada e tocamos para o bairro Joordan procurar um lugar bacana para jantar – afinal, era o aniversário da Luana e a gente merecia um banquete pra fechar o dia em alto estilo (mas é post de bike ou de comida isso aqui?).

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Nessa parte do rolê, confesso que fiquei meio tensa: a gente caiu numas ruazinhas bem vazias e escuras – pelo visto errei bem a mira do lugar que parecia ser super badalado à noite. Mas não deu nada, a única coisa que mudou foi a atenção redobrada por conta da má iluminação. De resto tranquilo.

No dia seguinte, fomos devolver as bikes já saudosas. A volta a pé foi tão mais longa e sem graça que nos questionamos por que fomos deixar para alugar só no último dia! A gente se acostumou a andar a pé, mas de bicicleta dava para ir mais longe, mais rápido, além de ser bem mais divertido. Achava que era bom dar uma ambientada antes, mas no fim acho que conhecemos melhor a cidade e sua dinâmica pedalando do que de qualquer outro jeito. Fica a dica pras próximas 😉

Fotos do post: Débora Costa e Silva – a que eu apareço foi feita pela Luana Kaiser, obviamente

Gente que viaja :: Antonio da Patagônia

Seu Antonio, hoje guia e motorista na Patagônia, já viajou o mundo. Foto: Débora Costa e Silva

Seu Antonio, hoje guia e motorista na Patagônia, já viajou o mundo. Foto: Débora Costa e Silva

Quando entrei na van para sair da região de Torres del Paine, no Chile, e seguir rumo ao aeroporto de Punta Arenas em uma viagem de quatro horas, estava pronta para dar um cochilo, ouvir música e relaxar. Faria isso tranquilamente se não tivesse notado que o motorista chileno falava português super bem, quase sem sotaque. Fiquei instigada e comecei a puxar papo.

No começo foi difícil, porque a primeira impressão é de que ele era meio rabugento, sério, daqueles que não tá afim de conversar. Mas ele foi respondendo as minhas perguntas e quando me dei conta, ele já estava resgatando histórias e memórias por conta própria, empolgado de lembrar de seus tempos no Brasil.

Antonio dirigindo de Puerto Natales até Punta Arenas, onde mora há 4 anos. Foto: Débora Costa e Silva

Antonio dirigindo até Punta Arenas, onde mora há 4 anos. Foto: Débora Costa e Silva

Ele morou por quatro anos no Rio de Janeiro entre os anos 1981 e 1985 para fazer faculdade de Hotelaria – inspirado e incentivado por sua mãe, que trabalhou a vida toda em companhias aéreas, entre elas a extinta Varig. Segundo Antonio, ela o ajudou a fazer a transição para o Brasil para estudar, já que não havia esse curso ainda no Chile. Do tempo em que viveu no Rio, suas lembranças mais queridas e saudosas são dos carnavais que desfilou pela Mangueira. Ele participou de todos os ensaios, aprendeu até a tocar surdo e integrou a bateria.

Mas não parou por aí. Por conta da profissão, ele carimbou muito seu passaporte e sua carteira de trabalho. Antonio já viveu na Venezuela, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana e Trinidade, além das diversas vezes que foi aos Estados Unidos e para o Canadá. Nesses lugares, já foi guia turístico, guia de selva, instrutor de mergulho e parapente, trabalhou em hotéis e atuou como motorista-guia turístico inúmeras vezes – como agora na Patagônia, onde vive há 4 anos com a esposa.

“Sou ávido por informação. Estou sempre lendo, estudando e fazendo cursos – o último foi o da Conaf (Corporação Nacional Florestal), no Parque Torres del Paine”. Além da busca por conhecimento, fiquei curiosa para saber mais sobre o que o motiva a viajar e mudar tanto de um lugar para o outro. “Um ano inteiro fazendo um mesmo roteiro todos os dias cansa. Quando aparecia uma outra oportunidade, eu não pensava duas vezes. Eu me identifico com os cachorros. Aquela coisa de sair por aí andando sem rumo, meio vagabundo, sabe? Então, eu sou um deles”.

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Lago Sarmiento com vista para as Torres del Paine, na Patagônia Chilena. Foto: Débora Costa e Silva

Enquanto a paisagem na janela mudava e o vento ganhava mais força conforme avançávamos para o sul, seu Antonio foi mostrando cada vez mais seu lado sensível, sereno e filosófico. Questionei então o que queria saber desde o início: por que viver na Patagônia? Segundo ele, a escolha foi da mulher, que é apaixonada por glaciares e também é guia de turismo. Enquanto ele fala inglês, francês e português, ela complementa o currículo de idiomas do casal com alemão e japonês.

Eles moram há quatro anos em Punta Arenas, longe do filho mais velho, que estuda cinema em Santiago, mas ainda próximos ao caçula, que estuda teatro ali na região. “Fico aqui porque é cômodo e confortável. Agora com família, casado e filhos grandes, a vida está mais tranquila”, explica.

Mas não acha muito vazio? “Não, acho perfeito. Depois de morar em Santiago, qualquer lugar é gostoso. O pessoal que mora lá está sempre estressado, correndo, no metrô as pessoas ficam espremidas que nem sardinha em lata. Aqui estou muito bem. É uma das mil razões que viemos para cá”, defende.

A vida social é escassa na Patagônia. Se o tempo está bom, ele e a esposa fazem churrasco e recebem os poucos amigos que fizeram por aquelas bandas. Afinal, para um forasteiro, é difícil criar vínculos com quem nasceu e viveu na região a vida toda. Nas horas vagas, gosta de se dedicar ao jardim de sua casa, ler e pescar – e já está de bom tamanho.

Para encerrar, Antonio me falou uma das frases mais bonitas e melancólicas que já ouvi. “A solidão é impagável. Porque não há silêncio quando se mora em uma cidade tão grande, os pensamentos são praticamente compartilhados com os outros, estamos sempre cercados de gente. Quando se é jovem, é importante sair e ter vida social. Mas depois de um tempo, muito barulho já não dá mais. Muita poluição visual também não é bom. Por isso eu prefiro morar aqui”, concluiu.

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“A solidão é impagável”, diz o seu Antonio sobre escolher viver na Patagônia. Foto: Débora Costa e Silva

Travel Tattoo :: Raíra Venturieri

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Foto: Paulo del Valle

Uma viagem pode ser tão impactante na vida de alguém que guardar fotos e lembranças pode não ser o suficiente. Daí que muita gente tatua na pele seu amor por um lugar ou algum símbolo que represente essa experiência. Por isso resolvi dar início a essa série de posts sobre tatuagens de viagem.

Para começar, apresento aqui a Raíra Venturieri. Ela é jornalista, trabalha atualmente na agência STB, mantém o Delícia de Blog!, mas antes passou pelas redações da revista Viaje Mais e Guia Quatro Rodas. Já fez viagens incríveis para o Canadá, Itália, Espanha, Suíça, África do Sul, Belém do Pará e vive fazendo a ponta aérea SP-Rio. A gente se conheceu numa viagem mágica para o Atacama em 2010, fizemos a amizade subir a cordilheira e seguimos amigas até hoje <3. Leiam abaixo as histórias incríveis sobre suas travel tattoos.

Quantas e quais são as tatuagens que você têm?
Tenho três tattoos: umas flores no pé, um muiraquitã no braço e um elefantinho na costela.

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Foto: Arquivo pessoal

Quando e onde foram feitas?
A do pé foi a primeira, eu tinha uns 19 anos (tipo 2008), queria uma tattoo e amei o desenho. No fundo não tem nenhum significado, além de eu querer (e poder!) desenhar algo na minha pele pra sempre só porque é bonito. Fiz aqui em SP, no Tattoo Dreams.

Depois fiz o muiraquitã, que é um amuleto da Amazônia. Tem uma história super legal por trás, porque é um amuleto que as índias amazonas (aquelas guerreiras!) faziam para seus parceiros de outras tribos, para protegê-los. Também é um símbolo de fertilidade. Acho uma coisa meio girl power!

Mas a verdade é que pensava em tatuar o muiraquitã desde criança, porque minha mãe é paraense e tínhamos um em casa. Aí em 2013 eu fiz uma viagem pelo Pará pra fazer o Guia Quatro Rodas, e foi incrííível! Minha mãe, que é bióloga, me acompanhou por boa parte do roteiro e a experiência foi maravilhosa. Então, já de volta a SP, eu decidir tatuar – pra marcar a viagem, a minha origem e a relação super próxima que tenho com minha mãe. E meu girl power!! Fiz no Tattoo Dreams também.

Já o elefantinho foi um desejo que surgiu depois que fui pra África, em 2012. Foi emocionante ver os animais no habitat natural, livres, selvagens. O ponto alto dessa viagem foi um cruzeiro pelo Chobe River, entre a Zâmbia e a Botswana, em que elefantes bebiam água e se refrescavam nas margens do rio estreito. Era tão lindo que chorei na primeira vez que vi! hahaha Desde então me apaixonei por esses animais, que além de lindos são super fortes e leais.

Fiquei com muita vontade de tatuar, mas com certo receio por ser um desenho meio difícil, com alto risco de ficar tosco. Então, quando estava em oooutra viagem – em Miami, agora em 2015 – conheci uma tatuadora incrível em South Beach. Além de talentosa, era mulher e já falei que adoro um girl power, né? Aí bolamos o desenho e eu fiz lá, de impulso. Ela se chama Maria Acevedo e tatua no Salvation Tattoo Lounge. É minha tattoo favorita, amo muito!

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Foto: Paulo del Valle

Como foi a escolha dos desenhos? Bateu o olho e gostou? A ideia veio de uma vez?
As flores no pé eu disse mais ou menos o que eu queria, ele desenhou direto no pé na hora e eu amei. Simples assim.

O muiraquitã eu pedi pra um amigo meu super artista, o Stefano, desenhar pra mim. Queria um desenho que fosse só meu, e também uma versão mais fofa do amuleto, que afinal de contas é um sapo né gente? hahaha

O elefantinho eu pesquisei 95947362 imagens de elefante no Google, no Pinterest e no Instagram. Até que achei um fofinho, pedi pra tatuadora fazer umas adaptações (trombinha pra cima, coraçãozinho, sombreado) e pronto, puro amor.

Tem planos de fazer outras? Quais e por quê?
Faz um tempinho que quero fazer duas, umas flores no braço e uma setinha no dedo (a hipster né). Mas não têm significado nenhum, e sempre que eu tenho ideia de uma tattoo eu seguro por um tempo pra ver se ainda quero. Acabei de voltar de uma viagem incrível pela Grécia, Itália e Paris, e seria bem legal fazer um desenho pra marcar esse momento. Ainda não bolei. Mas sabe que só de escrever aqui já me vêm umas ideias? hahaha 🙂

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Foto: Paulo del Valle

E você, tem alguma tatuagem que tenha sido inspirada por alguma viagem? Conte a sua história também! Mande para papetespelomundo@gmail.com

Pucón :: Neruda e a chuva do Chile

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Há tempos ensaio a leitura do livro “Confesso que vivi”, de memórias do poeta Pablo Neruda. Comecei e parei algumas vezes, mas essa semana resolvi encará-lo de vez, aproveitando que vim para o Chile novamente. E qual não foi minha surpresa ao descobrir logo nas primeiras páginas que estava indo justamente para Temuco, a cidade onde o escritor passou sua infância e adolescência?

Na verdade vim para Pucón, destino turístico cheio de atrações naturais e de práticas de esportes de aventura. Mas para chegar aqui desembarquei no aeroporto de Temuco, a uma hora de carro do hotel Antumalal, onde estou hospedada. A região de lagos e vulcões, além de belíssima, também é bastante chuvosa. Essa semana não será diferente e já comecei o primeiro dia curtindo observar a paisagem molhada e a chuva cair.

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Mas bonito mesmo é o que o Neruda fala sobre como é a chuva nessa região:

“A chuva caía em fios como compridas agulhas de vidro que se partiam nos tetos, ou chegavam em ondas transparentes contra as janelas, e cada casa era uma nave que dificilmente chegava ao porto naquele oceano de inverno.”



“Esta chuva fria do sul da América não tem as rajadas impulsivas da chuva quente que cai como um látego e passa deixando o céu azul. Pelo contrário, a chuva austral tem paciência e continua sem fim caindo do céu cinzento.”

A descrição é fiel: por essas bandas a chuva demora a passar. Já tinha perdido as esperanças quando reparei uns tímidos raios de sol entrando pela janela. E por mais que eu estivesse curtindo esse clima de chuva-frio-preguiça e apreciando a paisagem molhada, não tem como negar que o sol trouxe mais vida pra cá.


Vamos ver o que o tempo (e o livro do Neruda) nos reserva.

São Paulo :: Rolê de bike pelo Minhocão

Foto: Débora Costa e Silva

Há muito tempo venho querendo usar o sistema de aluguel de bicicleta Bike Sampa e nunca tinha rolado. Os motivos da demora são vários e ao mesmo tempo nenhum: é tão fácil, simples e prático que eu mesma não me conformo que só fiz isso agora #shameonme. Mas antes tarde do que nunca né?

A pedalada de estreia foi num dos lugares mais bacanas de passear em São Paulo durante os fins de semana: o Elevado Costa e Silva – vulgo Minhocão. Eu também nunca tinha ido andar por lá quando fica fechado (#shameonme2) e, apesar de ser uma construção que já causou muita polêmica por ser considerada um “desastre urbanístico“, sempre me encantei pela ideia de circular ali em cima e ver a cidade sob uma nova perspectiva. É um visual incrível e o elevado vira uma passarela ótima para correr, andar de skate, patins ou de bicicleta: asfalto lisinho, com pouquíssima inclinação e bastante espaço.

Fiz algumas paradinhas estratégicas durante o passeio, mas é claro que em São Paulo cada esquina pode reservar uma surpresa – e dessa vez não foi diferente. Vejam abaixo como foi o rolê:

 

Ponto Chic :: Ponto de partida

Para ter energia para pedalar, fui almoçar no tradicional Ponto Chic que fica na boca da entrada do Minhocão, em Perdizes, no Largo Padre Péricles. Fui de carro até ali perto, sentei em uma das mesinhas que ficam na rua e pedi logo o lanche clássico da casa, o Bauru.

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Foto: Divulgação – Ponto Chic Perdizes, Largo Padre Péricles

A criação desse sanduíche foi nessa lanchonete, mas em sua sede, no Largo Paissandu, graças às invencionices culinárias de um frequentador assíduo, seu Casimiro Pinto Neto, cujo apelido era o nome de sua cidade natal – Bauru.

Reza a lenda que ele pedia para o garçom ir acrescentando determinados ingredientes, de acordo com o que lia sobre nutrição (carne tem proteína, tomate vitaminas e por aí vai) e a mistura fez sucesso. Todo mundo chegava e pedia “Me vê um desses do Bauru”!

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Pão francês + rosbife + tomate + pepino + queijo especial = Bauru. Foto: Divulgação

A receita está aí na legenda da foto, mas não é um simples queijo: é uma mistura entre quatro tipos que resultam no ingrediente que vai neste sanduíche especial. Quem quiser saber mais, dá uma olhada nesse vídeo aqui que mostra como faz o lanche 😉

Vale ressaltar: o garçom que me atendeu era extremamente simpático e gente boa. Ia pedir um suco de morango, mas ele falou: “tem certeza? O daqui não é bom não”. Quantas vezes você topou com tamanha sinceridade? Achei louvável.

Bike Sampa :: Modo de usar

Pernas pra quê te quero: estreando no Minhocão feliz da vida. Foto: David Santos Jr

Pra quem não sabe, o Bike Sampa é um projeto da Prefeitura de São Paulo patrocinado pelo Itaú, que incentiva a mobilidade urbana. Há duas formas de usar o sistema: ativar o seu Bilhete Único ou usar o aplicativo. Escolhi a segunda opção por achar mais fácil. Feito o download do app e o cadastro (é preciso  um cartão de crédito para debitar o valor do aluguel), você já está habilitado para pegar uma bike e sair por aí :-).

Há muitas estações espalhadas em São Paulo e o app funciona direitinho, com um mapa que pode mostrar todas elas ou só as que têm bikes disponíveis ou ainda só as que têm vaga para devolver as bicicletas. O melhor dessa história toda? A primeira hora de uso é gratuita! Depois, são R$ 5 a cada hora de aluguel – se você fizer uma paradinha de 15 minutos entre uma hora e outra, sai de graça também. Outro fator positivo: você pode devolver a bike em qualquer estação, é só ter vaga e encaixá-la de volta.

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Ali no Largo Padre Péricles tem uma estação e, de acordo com o mapa, tinham três bicicletas disponíveis. Só que não: uma mulher estava lá enfrentando problemas para usar uma bike, porque uma estava travada e não saía de jeito nenhum, a outra não aparecia como disponível no sistema e a única que dava para soltar do encaixe estava com o pneu furado. A moça já havia ligado na central do Bika Sampa para avisar, mas não tinha jeito: ou a gente esperava alguém devolver uma bike ou iríamos em outra estação.

Por sorte era feriado e a movimentação era grande. Logo apareceu um pessoal para devolver as bicicletas e consegui pegar uma para mim. Ela tem três marchas, uma cestinha e estava novinha, super bem conservada. Ajustei a altura do assento e encarei o Minhocão.

Minhocão :: A estrela do dia

Um dos grafites mais bacanas do caminho, a raiz da planta “nasce” na caixa d’água do prédio. Foto: Débora Costa e Silva

Percorri todo o elevado e o passeio foi super agradável. Eu estou numa fase bastante sedentária, tentando voltar a rotina de exercícios, então sofri um pouco nas subidas. Você pode falar “mas o Minhocão é plano, que subida?”.

Pois é, eu também pensava assim, mas como estou enferrujada, cada inclinaçãozinha era um pequeno martírio para minhas pernas. Nada grave: fui devagar e foi uma delícia o exercício, mas serviu para dar um chacoalhão básico e me fazer querer superar isso.

De resto, o bacana  desse rolê é aquilo que já falei no começo do texto: ver São Paulo a partir de um novo ângulo. Estar entre os prédios, não dentro ou embaixo deles. Estar na rua ativamente, não dentro de um carro ou na calçada.

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Jardim vertical na lateral do prédio causa um impacto no meio da paisagem cinza. Foto: Débora Costa e Silva

O Minhocão em dias úteis tem uma outra vibe, tudo ali é pesado, poluído, deprê. Os prédios antigos e mal conservados ainda estão lá de fim de semana e feriados, é claro, mas rodeados de gente se divertindo. Outro clima, outra São Paulo.

Os grafites e as intervenções urbanas ainda não são muitos, mas os que existem já causam um impacto e tanto entre os visitantes. O que mais gostei é um desenho que simula o interior dos apartamentos dos prédios ao redor do Minhocão.

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A intervenção que eu mais curti no Minhocão. Foto: Débora Costa e Silva

Surpresas no centro :: Zombie Walk

A próxima parada seria a Casa Matilde, na rua São Bento, onde vendem docinhos portugueses. Quando cheguei no fim do Minhocão, na rua da Consolação, peguei um bom trecho sem ciclofaixa e fui andando cuidadosamente no cantinho das ruas ou pela calçada.

Como era feriado, estava bem tranquilo percorrer esse trecho, mas conforme fui avançando, o número de pessoas aglomeradas foi aumentando e logo descobri que estava no meio da Zombie Walk!

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Multidão zumbi toma conta do Viaduto do Chá, no centro de SP. Foto: Débora Costa e Silva

Fiquei impressionada com o tanto de gente que estava participando e com o capricho das fantasias. Tinham umas bem criativas, milhares de noivas cadáveres, uma Tropa de Elite enorme e até uns mais engraçados, tipo Salsicha & Scooby Doo, mas o ápice da parada foi quando um cara vestido de Batman subiu no topo de uma banca perto do Teatro Municipal e a plateia veio abaixo.

Parada para comer :: Café Girondino

A Casa Matilde estava fechada e o jeito foi ir até o Café Girondino, outro point tradicional do centro de São Paulo. Charmoso, com uma escadaria no centro, mesas, cadeiras e mobília de madeira, o clima remete o início do século 20. Foi um lugar delicioso para fazer uma pausa da pedalada, mas ao contrário do Ponto Chic, não fiquei muito feliz com o atendimento.

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As curvas do Café Girondino são um charme à parte. Foto: Facebook do Café

Não sei se é sempre assim ou se os garçons estavam especialmente desatentos, mas fiquei sentada quase meia hora sem ninguém me atender, só deixaram o cardápio e nunca mais voltaram – e não era o caso de estar lotado, bem longe disso. Mudei de mesa e resolvi pedir direto no balcão para agilizar. Pelo preço e pela tradição do lugar, esperava outra coisa. O café, por outro lado, estava uma delícia.

O Retorno :: Levando a bike no metrô

Logo ao lado do Café Girondino, tem uma estação do Bike Sampa, onde já devolvi a bicicleta para facilitar. Para voltar até o carro, resolvi ir de metrô da estação São Bento até a Marechal Deodoro.

Eu sempre apoiei e admirei meus amigos que trocaram carro ou mesmo metrô e ônibus por bicicleta. Os que começaram anos atrás então, nem se fala, foram desbravadores e corajosos. Tudo isso pra que hoje pessoas como eu, que estão longe de ser da turma do esporte ou ativistas, curtam um dia tranquilo de bike por São Paulo, com cada vez mais segurança, conforto e companhia. E que seja apenas o primeiro dia de muitos! 🙂

Uma das entradas para o Minhocão perto do metrô Marechal Deodoro, com tantas árvores que me senti num parque. Foto: Débora Costa e Silva

Patagônia :: Terra de extremos

Cruzeiro Australis percorre as geleiras e ilhas da Terra do Fogo, no extremo sul da América Latina - Foto: Débora Costa e Silva

Cruzeiro Australis percorre as geleiras e ilhas da Terra do Fogo, no extremo sul da América Latina – Foto: Débora Costa e Silva

É curioso o quanto o trajeto de uma viagem influencia as impressões sobre o lugar para onde vamos. Nas duas vezes em que fui para a Patagônia chilena (a primeira em 2009, e a última agora, em agosto de 2015, ambas a trabalho) tive percalços e muita tensão durante a ida. Acho que isso fez com que esse destino que já é especial, se tornasse tão marcante para mim.

Chegar de uma viagem cansativa na praia é uma coisa: você é acolhido pelo mormaço, pelo céu azul, pelo sol, pela maresia e por uma calmaria geral. Já quando se vai para um destino de inverno as coisas começam a complicar: você usa mais roupas, é difícil se locomover, o céu pode estar cinzento, às vezes tem até chuva e o vento dificulta seus passos. A Patagônia é assim, dura na queda, não é de sorriso fácil. Mas ela conquista aos poucos e definitivamente.

Pensa n num lugar frio. E lindo. É aqui! Na foto, um dos glaciares vistos no cruzeiro pela Terra do Fogo. Foto: Débora Costa e Silva

Pensa n num lugar frio. E lindo. É aqui! Na foto, um dos glaciares vistos no cruzeiro pela Terra do Fogo. Foto: Débora Costa e Silva

Meu primeiro encontro com este lugar foi há seis anos, quando fiz o cruzeiro Australis, que navega pelas ilhotas e geleiras da Terra do Fogo, de Punta Arenas (Chile) para Ushuaia (Argentina). Foi a primeira viagem a trabalho, sozinha e também a primeira (e única) vez que perdi um voo e quase pus tudo a perder. Culpa de um taxista mercenário que mudou de trajeto até o aeroporto qua-tro ve-zes e me fez chegar 5 minutos depois do check-in ter encerrado.

Chorei muito no balcão da TAM até ser expulsa (“Você pode sair daqui? Está atrapalhando”). Com a ajuda da minha mãe, ninja das burocracias de viagem, consegui embarcar em um voo da LAN meia hora mais tarde. Depois de muito correr, tremer e chorar, consegui chegar a tempo de pegar outro voo para Punta Arenas e finalmente embarcar no cruzeiro.

Vista de montanhas de picos nevados a partir da Baía Wulaia, no extremo sul do Chile. Foto: Débora Costa e Silva

Vista de montanhas de picos nevados a partir da Baía Wulaia, no extremo sul do Chile. Foto: Débora Costa e Silva

O vento gelado e cortante é onipresente e deu o tom da viagem. Foi mágico estar cercada de glaciares, ver de perto condores, elefantes marinhos e pinguins, enfim, estar imersa à natureza  patagônica. A sensação de ter chegado ao fim do mundo é, ao mesmo tempo, encantadora e assustadora. Não há dúvidas de quem manda ali é a natureza. Tudo é intenso. Costumam dizer por lá que é possível ter em um só dia as quatro estações do ano: abre o céu, vem o sol, venta, chove, refresca, gela, ameniza, passam nuvens, volta o sol e o ciclo recomeça. Terra de extremos.

Corta a cena e pula para agosto de 2015. Novamente a trabalho, tinha uma passagem em que constava “Punta Arenas” como o destino final. O avião saía de Santiago, parava em Puerto Montt e seguia até lá. Durante o voo fiquei relembrando todas essas sensações da primeira vez, em como era especial estar de volta, o quanto estava com saudades de sentir aquele frio com gostinho de Patagônia, em como eu precisava dessa viagem para descansar da vida atribulada e aproveitar para relaxar a mente, ter insights legais, dar aquela pirada gostosa…

Não importa se é a primeira ou a quinquagésima vez: quando vemos a neve cair, o encanto permanece o mesmo. Foto: Débora Costa e Silva

Não importa se é a primeira ou a quinquagésima vez: quando vemos a neve cair, o encanto permanece o mesmo. Foto: Débora Costa e Silva

Eis que chegamos em Puerto Montt e o cenário mudou. Ao invés do gosto de pisco souer para comemorar, o sabor amargo de um café que me servi na sala de embarque para aliviar a tensão de ter que esperar consertarem um vazamento no avião. Fiquei com o grupo de jornalistas pensando nas várias possibilidades do que poderia acontecer: teríamos que esperar outro voo? Mas tem outro voo? Vamos dormir aqui?

A resposta veio logo: o vazamento foi resolvido. Ufa, meia horinha de puro drama e nada mais, tudo certo. Voltamos para os nossos assentos, ainda bastante temerosos em relação a essa rápida solução, mas ok. Peguei o caderninho, coloquei o cinto e voltamos ao céu.

O céu da Patagônia é quase sempre sinistro assim, cheio de nuvens e cores que dão um aspecto sombrio e mágico ao lugar. Foto: Débora Costa e Silva

O céu da Patagônia é quase sempre sinistro assim, cheio de nuvens e cores que dão um aspecto sombrio e mágico ao lugar. Foto: Débora Costa e Silva

Mas tão logo começou a voar, o avião passou a chacoalhar: de um lado para o outro, para frente e para trás. Eu normalmente sou tranquila em relação à turbulências, mas essas me assustaram. Era culpa do vento, aquele que estava descrevendo alguns parágrafos acima. Tão gostoso e fresco na memória, mas de repente tão brusco e apavorante. Se lá do alto dava para sentir sua força, imagine em terra firme? Para ajudar, olhei para fora da janelinha e o céu estava num tom de cinza sinistro.

Tentei voltar a escrever, mas essa altura já estava com o estômago revirado e beeeem distante daquele romantismo todo. Como alguém pode gostar dessa ventania, capaz de balançar tão forte um avião? Como eu pude pensar que estava com saudades desse frio, desse lugar bizarro e sombrio?

Vista das Torres del Paine, na Patagônia chilena. Foto: Débora Costa e Silva

Vista das Torres del Paine, na Patagônia chilena. Foto: Débora Costa e Silva

Finalmente pousamos. O frio veio me dar boas vindas, gelando meu nariz e qualquer pedacinho descoberto do meu corpo. Por mais que eu me esforçasse em ver beleza na chegada, o enjoo do voo persistiu e me acompanhou durante toda a viagem de carro até o hotel. Foram longas quatro horas, em que eu não sabia se comia, bebia água, mascava chiclete ou deixava meu estômago embrulhado quieto na dele.

Chegamos no hotel à noite e o alívio foi substituindo o mal estar. Não era para menos, o Tierra Patagônia é sensacional: todo feito de madeira, te dá uma sensação de aconchego logo de cara. Fui dormir apavorada com os barulhos do vento, da madeira rangendo – pra ajudar a luz do banheiro piscava, quase filme de terror – e zonza ainda da viagem, sem saber direito onde estava, como e por que. Descobri só no dia seguinte, quando abri a cortina e dei de cara com as Torres del Paine na janela.

Na praça central de Punta Arenas, tem essa estátua de um índio. Dizem que para voltar ao destino, e preciso beijar seu pé. E não é que voltei? :P

Na praça de Punta Arenas, tem essa estátua de um índio. Dizem que para voltar ao destino, é preciso beijar seu pé. E não é que voltei? 😛

Pronto, mais um sonho realizado. Mais uma vez aquele céu, o vento, os galhos secos, os arbustos amarelos, as montanhas de picos nevados, os condores – agora acompanhados também de ovelhas e guanacos – me curando da ressaca da viagem. De novo eu ali, como uma menininha com medo do escuro, com frio na barriga, prestes a explorar um novo lugar. Mais uma vez uma fase nova da vida marcada por este destino que consideram o fim do mundo, mas que pra mim se tornou um lugar de renovação e recomeços.

Vai lá!
Matéria que fiz para o UOL Viagem sobre o cruzeiro Australis.

Destinos Xarás :: Barcelona (ESP) x Barcelona (RN)

Topo da Pedra da Fé, serra que fica na entrada de Barcelona (RN). Ao fundo se vê a Serra da Arara. Foto: Fabio Pinheiro (Creative Commons)

Topo da Pedra da Fé, serra que fica na entrada de Barcelona (RN). Ao fundo se vê a Serra da Arara. Foto: Fabio Pinheiro (Creative Commons)

Um dos principais destinos turísticos da Europa, a cidade espanhola Barcelona, quem diria, tem mais de 40 xarás espalhadas pelo mundo – além de ter dado nome a um asteróide (!). No Brasil, apesar de ter umas “primas” – os municípios Santo Antônio de Barcelona (Bahia) e Catalão (Goiás) – há apenas uma cidade xará: o município que fica no estado do Rio Grande do Norte. Foi essa que escolhi para estrelar a série.

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Localização

Barcelona (ESP): Localizada no noroeste da Espanha, é a maior cidade e capital da região da Catalunha e da província de Barcelona. Possui uma área de 668 km².

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Barcelona (RN): Localizado no estado do Rio Grande do Norte, na região Nordeste do Brasil, a cidade possui 152 km² e fica a 86 km de Natal. Longe do mar, no sertão do estado.

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Origem do nome e da cidade

Arco do Triunfo de Barcelona. Foto: Débora Costa e Silva

Arco do Triunfo de Barcelona. Foto: Débora Costa e Silva

Barcelona (ESP): O nome é derivado do idioma ibero-fenício barkeno, em latim Barcilonum, Barceno e Barcino (um de seus primeiros títulos). Os primeiros vestígios de povoamento são do final do período Neolítico (2.000 a 1.500 a.C.) e supostamente foi fundada como povoado por Hércules, 400 anos antes de Roma. Em seguida, teria sido refundada por Amílcar Barca, de onde viria o nome.

A história da cidade é longa e dá dó de resumir. Barcelona teria sido fundada oficialmente pelos romanos no fim do século I a.C. e depois se converteu em uma fortificação militar. Passou quase um século sob o domínio muçulmano, foi disputada em diversas guerras e batalhas entre espanhóis e árabes e entre catalães e castelhanos.

Estrada de acesso a Barcelona (RN). Foto: Sonia Furtado (Creative Commons)

Estrada de acesso a Barcelona (RN), com vista para a Pedra Vermelha. Foto: Sonia Furtado (Creative Commons)

Barcelona (RN): Antes de se tornar xará da cidade catalã, o município potiguar se chamava Salgado, devido ao alto teor de salinidade de seus terrenos, nome dado também a maior fazenda da região, cujos primeiros registros datam de 1864.

Foi em 1929 que o povoado passou a se chamar Barcelona, graças ao prefeito de São Tomé, município do qual fazia parte. Mas ao contrário do que se imagina, o nome não foi inspirado na xará espanhola, mas sim em um seringal homônimo da Amazônia onde o tal prefeito havia trabalhado.

Geografia

Foto: Henri vK (Creative Commons)

Praia de Barcelona. Foto: Henri vK (Creative Commons)

Barcelona (ESP): A cidade possui quatro principais áreas em seu território: o litoral, na costa do mar Mediterrâneo, a Serra da Collserola (ponto mais alto do município, com 512 metros de altura), a planície e os deltas dos rios Besòs e Lobregat.

Serra Vermelha. Foto: George Maia

Serra Vermelha. Foto: George Maia

Barcelona (RN): O município potiguar não tem praia, mas o relevo é bastante acidentado, cercado por serras, sendo as mais conhecidas a Arara e a Vermelha. Apesar do clima ser semi-árido, Barcelona tem a sorte de ser banhada pelo rio Potengi, que corta a cidade de oeste a leste. Mesmo assim, os períodos de seca invariavelmente afetam o rio e seus riachos.

População 

Foto: Duncan Rawlinson @thelastminute (Creative Commons)

Foto: Duncan Rawlinson @thelastminute (Creative Commons)

Barcelona (ESP): Possui cerca de 1,5 milhão de habitantes, fazendo dela a segunda cidade mais povoada do país, atrás apenas de Madri, capital da Espanha. Recebe turistas e novos residentes continuamente.

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Barcelona (RN): São 3.990 habitantes de acordo com o seu portal na internet. E enquanto o de cima sobe, o debaixo desce. Na xará espanhola esse número só cresce, mas na cidade potiguar a quantidade de moradores cai, por conta da migração de barcelonenses para Natal ou mesmo para São Paulo.

Igreja

Sagrada Família. Foto: Débora Costa e Silva

Sagrada Família. Foto: Débora Costa e Silva

Barcelona (ESP): Há diversas igrejas na cidade, mas a mais emblemática é a Sagrada Família, projetada pelo aclamado arquiteto Antoni Gaudí. O templo católico de estilo neogótico está em construção desde 1882 e a previsão é de ser concluído só a partir de 2026. Esculturas, abóbadas e vitrais são alguns dos detalhes da construção que impressionam os visitantes.

Igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Foto: GerMaia (Creative Commons)

Igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Foto: GerMaia (Creative Commons)

Barcelona (RN): A principal igreja da Barcelona potiguar não tem nada muito exótico ou monumental, mas reúne muitos fiéis: é a Igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Também tem vitrais e pedras que embelezam a construção. Ela não chega a ser tão antiga, mas possui uma tradição de mais de 70 anos: foi inaugurada em 1942.

Lagarto

Pois bem: já no fim das minhas pesquisas sobre as Barcelonas da Espanha e do Rio Grande do Norte, eis que me deparo com a foto de um lagarto, feita pelo fotógrafo Fabio Pinheiro na Serra da Arara (RN).

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Lagarto na Serra da Arara (RN). Foto: Fabio Pinheiro (Creative Commons)

Achei curioso uma das poucas fotos disponíveis da Barcelona potiguar na internet ser justamente a de um animal que é praticamente um símbolo da xará espanhola. No Parque Güell, em Barcelona, uma espécie de lagarto composto por mosaicos, chamado El Drác, fica em uma escadaria logo na entrada do local.

Foto: Débora Costa e Silva

Crianças não largam o osso e grudam no El Drac, no Parque Güell. Foto: Débora Costa e Silva

Diferente do flagrado no Rio Grande do Norte, este lagarto não vive tão tranquilo andando isolado em meio à natureza. Pelo contrário: não tem um minuto de paz, pois está sempre cercado de turistas que querem fotografá-lo. Quando estive lá não consegui também fazer uma foto decente – o jeito é se render aos suvenires que reproduzem o El Drac, de ímãs à esculturas em pedra lindíssimas.

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A série de posts Destinos Xarás mostra as semelhanças e diferenças de lugares do mundo que levam o mesmo nome. Investigando suas origens, vamos descobrir também um pouco da história e da cultura de cada destino.

Aproveito para convidar vocês a participar: conhece alguma cidade que tenha o mesmo nome de outra? Lembra de alguma história curiosa sobre esses lugares? Manda pra cá no e-mail papetespelomundo@gmail.com

Gente que viaja :: Pancho do Atacama

Francisco Gonzales – ou Pancho – tem apenas 19 anos e já é guia turístico no Atacama desde os 16. É especialista em plantas e ervas – mas é modesto. “É porque quem vive no deserto valoriza mais o verde”.

Começou a guiar turistas graças a um programa das escolas da região, que oferecem curso e estágio em turismo durante o ensino médio. Pensou em estudar agricultura, mas achou que com turismo ele teria mais oportunidade de conhecer uma variedade maior de plantas e ecossistemas.

Durante os passeios que fiz guiada por ele, Pancho explicou bastante coisa sobre as peculiaridades do Atacama: como se formam os cristais de sal e de gesso, as rochas e dunas, falou sobre os frutos e plantas também e até sobre pinturas rupestres.

Além de conhecer bem a região, o rapaz é super atencioso com todo o grupo. Perdeu a explicação? Ele volta, repete e sempre termina o tour com a trinca: perguntas, dúvidas, reclamações?

Seu plano para quando acabar os estudos e a temporada do hotel que trabalha, o Tierra Atacama, é cair na estrada. Nada mais natural para quem lida diariamente com viajantes e é apaixonado pela natureza. Já está marcado: em março do ano que vem pretende percorrer o Chile de norte a sul.

Nesse tempo como guia, ele disse que aprendeu com os hóspedes do hotel cultura e sofisticação e, com os mochileiros, desprendimento. “Para mim, basta uma mochila e uma harmônica (gaita) para cair na estrada”.

Assista o Pancho tocando sua harmônica.