Gente que viaja :: Mulheres que viajam sozinhas

Hoje é 8 de março, Dia Internacional da Mulher, e a data não poderia passar em branco por aqui. Além do fato óbvio de ser uma mulher que produz o conteúdo do blog, também acho providencial aproveitar o momento para falar um pouco sobre como nós viajamos e vivenciamos as experiências na estrada.

Sei que muito já foi dito e discutido por aí sobre mulheres que viajam sozinhas, mas quero retomar o assunto porque é uma questão que me toca muito. As viagens mais transformadoras para mim foram as que eu estava só e vivi momentos em que a sensação predominante era de liberdade. Toda viagem já mexe um pouco com a gente e nos ensina algumas coisas, mas sozinha o foco está apenas em nós mesmas, nas nossas vontades, esquisitices, neuras, paixões…  É claro que não são só flores, o caminho também é cheio de pedras e tropeços, mas a cada vivência vamos ganhando mais confiança e bagagem para as próximas, né?

Para inspirar e encorajar, convidei algumas amigas que já deram seus rolês sozinhas pelo mundo para compartilharem experiências, frustrações, descobertas e alegrias dessas aventuras. Tem quem já rodou o mundo, tem as que começaram a se aventurar sozinhas agora, mas todas se descobriram ótimas companhias para si mesmas e voltaram cheias de vontade de repetir a dose ❤

Denise de Almeida
Jornalista, trabalha no UOL. Depois da África descobriu que ama seus cachos, a adrenalina do desconhecido e a si mesma

Nunca me imaginei em uma viagem pela África, nunca fiz o tipo aventureira. Mas foi lá que eu me descobri de verdade, que eu reconheci minhas fraquezas. E voltei uma mulher muito mais forte. Era só minha segunda viagem a trabalho como jornalista de turismo. Não conhecia ninguém do grupo e eu era a insegurança em pessoa. Antes de ir, passei uma madrugada olhando para a mala vazia, levemente em pânico. O medo me paralisou na hora de montar a bagagem.

É que sair da zona de conforto é um esforço e tanto. Eu sabia que estava indo pra um lugar incrível, mas algo me dizia que era mais fácil não ir, não encarar o medo, ficar sentadinha confortavelmente no sofá, com acesso à TV e internet. Pressionada pelo tempo — faltava só 1h pro táxi vir me pegar pra levar ao aeroporto, arrumei tudo correndo e entrei no carro, coração disparado. Eu sabia que tinha cruzado a fronteira da zona de conforto e que não tinha volta.

Cada minuto na savana foi um aprendizado diferente. Um dos momentos mais marcantes foi tentar executar uma tarefa aparentemente simples: ficar em silêncio absoluto por poucos minutos. Chegamos ao salar de Makgadikgadi, que tem o tamanho de Portugal, no pôr do sol. O guia havia explicado que o lugar era rota para os bichos apenas durante o dia. Como não cresciam plantas por lá, nenhum bicho morava naquela área, nem humanos. Ao anoitecer, estávamos lá — um grupo de sete pessoas — a sós, com a proposta de contemplar a grandiosidade do silêncio.

Com meu drinque em mãos, sentei no chão e a primeira coisa que fiz foi tentar tirar uma foto com o celular. Liga e desliga o flash, muda o ângulo do copo… até lembrar que a missão era ficar quieta. Guardar o celular até que foi fácil. Difícil mesmo era acalmar o turbilhão de pensamentos: quando será que choveu aqui pela última vez? E se alguém passar mal? Nossa, não paguei aquele boleto. Me peguei dispersa de novo e, depois de muita concentração, consegui ficar apenas quieta. Na terceira tentativa, vitória!

O silêncio era tão profundo que eu juro que conseguia ouvir até o barulho da minha circulação sanguínea. Percebi que o silêncio absoluto é ensurdecedor – e que eu era ansiosa demais. Nem disfarcei as lágrimas que surgiram com as descobertas. Entendi que ser forte é admitir suas fraquezas. É saber que a gente não controla cada passo da vida – e que está tudo bem.

Foi o que me deu forças pra mudar toda a minha vida. Pra encarar que estava num relacionamento que já não me fazia feliz. Que havia um princípio de depressão dando as caras. Foi o start de uma série de mudanças que me fizeram amadurecer demais. Hoje sou mais forte e mais feliz e sei que tudo começou nessa viagem.

Luana Marcello Serrano
Educadora física, massoterapeuta, taróloga, astróloga, radiestesista e terapeuta holística. Apaixonada por desbravar o Brasil e começando a conhecer outros lugares do mundo

Fiz minha primeira viagem sozinha este ano, para San Andrés, na Colômbia. Mas já viajei muito pelo Brasil, fui para Florianópolis, Bahia, Chapada dos Veadeiros, Maceió, Fortaleza e até para o Chile e Uruguai. Mas nessa em que fui sozinha, tiveram várias pequenas situações que passei que me fizeram sentir mais corajosa. Coisas simples, como conversar com as pessoas, pegar um ônibus caindo aos pedaços para sair de uma praia não estava me agradando e mudar o rumo simplesmente porque eu quero.

Quando você está acompanhada, por qualquer pessoa que seja, mesmo com intimidade e liberdade, uma hora vem a pergunta: o que você acha de ir pra tal lugar ou fazer tal coisa? Rola um receio da minha parte de às vezes a pessoa não querer, de incomodar o outro. E sozinha isso não acontece.

Mas eu acho que a situação mais corajosa foi o momento anterior à viagem: comprar a passagem e resolver onde iria ficar, já que tenho tanta dificuldade de planejar. Tive um medo tão grande de comprar aquela passagem, cara daquele jeito, e pensar “pronto, não dá mais para voltar atrás”. Acabei fazendo uma compra impulsiva pra eu mesma não me boicotar.

Por ser mulher, passei por situações machistas, perigosas e ruins, mas ao mesmo tempo acabei encontrando coisas positivas por estar só. Consegui carona, o que talvez não rolasse se eu não tivesse sozinha, pois talvez não estivesse disposta a interagir. Fiz um passeio com uma pessoa nativa da ilha porque ela gostou de mim também. Então acho que também há muitas vantagens de ser mulher e estar sozinha, porque dá para nos encaixar em alguns passeios que, se estivéssemos com mais gente, talvez não conseguíssemos, por exemplo.

Mas o maior benefício é essa coisa de poder mudar o roteiro, fazer suas próprias decisões e se ouvir. Você se ouve verdadeiramente se estiver conectado com o que você quer, com o que você é e com o que está acontecendo em volta. Porque quando você está com outras pessoas, a sua percepção do entorno fica limitada. Então eu me senti muito mais conectada com o ambiente que eu estava em todos os sentidos: com o lugar, com as pessoas, desenvolvi minha sensibilidade.

Foi um jeito de me conhecer e saber o que eu quero fazer, o que me faz feliz. E a vida é feita disso, a gente se deixa levar por muitas coisas que não nos fazem felizes naquele instante. Essa busca de ter um bom emprego para ganhar bem e ser feliz está sempre no futuro. Em uma viagem dessas sozinha você está conectada com o presente, com o instante, isso é um grande ganho para a vida.

Maysa Torres
Jornalista e assessora de comunicação de empresas e destinos turísticos. É gaúcha, já rodou o mundo, mas adotou o Rio de Janeiro como casa

A dificuldade que tive na primeira vez que viajei sozinha para Bali e Camboja foi superar medos comuns apenas às mulheres, que precisam lidar com algumas abordagens mais invasivas, olhares que às vezes inibem e até com algumas críticas. Já escutei que estava me arriscando muito viajando sozinha justamente por ser mulher, por exemplo. Em alguns destinos, como nos Emirados Árabes é mais difícil pelo fato da mulher não ter muita autonomia, então assusta encontrar uma mulher que chega sozinha num hotel, num restaurante ou numa mesquita.

Uma experiência marcante foi fazer uma viagem de tuck tuck, de cerca de 1 hora, para ver o sol nascer num templo do Camboja. Quando me vi em uma estrada deserta com o motorista, a primeira coisa que veio à mente foi que estava mais exposta por ser mulher. Mas me enchi de coragem e fui, porque aquele era o único caminho para chegar onde queria, e valeu muito a pena. Foi inesquecível.

Entre as coisas boas, além da sensação indescritível de liberdade e superação de barreiras, estão as pessoas legais que você encontra pelo caminho. Entre as surpresas, está a quantidade de mulheres viajando sozinha. Vi muitas especialmente na Ásia.

Superação pessoal e cultural é enfrentar todas as situações e eventos sozinha. Achei uma vitória, e amei tanto que repeti, passar o Réveillon sozinha, sem medo, sem expectativas, mas aberta para conhecer pessoas e culturas diferentes. Foi maravilhoso.

A sensação de empoderamento anda comigo sempre que viajo sozinha, quando me imponho e não permito que o fato de ser mulher me deixe mais vulnerável. Em Myanmar tive que vencer barreiras como dirigir uma moto pequena para me locomover, subir em um templo de madrugada para ver o amanhecer mais lindo do mundo, viajar de ônibus à noite, lidar com um povo que quase não fala inglês e resolver problemas, mudando o roteiro de acordo com o que eu achava ser o melhor pra mim.

Me permitir estar sozinha e me posicionar de forma natural, sem me importar com os julgamentos, me dá uma sensação de empoderamento.

Gabriela Gasparin
Jornalista e escritora, idealizadora do projeto Vidaria e do livro de mesmo nome, que traz uma coletânea de histórias inspiradoras sobre o sentido da vida

Falar sobre viajar sozinha para mim não é exceção, e sim regra. Eu nunca fiz uma viagem internacional acompanhada. A primeira foi em 2010, eu tinha 24 anos. Na época eu namorava, só que não conseguimos tirar férias juntos e lá fui eu ficar um mês só em Londres. Confesso que não tive medo nenhum: fui por meio daqueles pacotes de intercâmbio, com cartinha de apresentação e “host family”, sabe? Muitas amigas já tinham feito o mesmo então fui cheia de ansiedade! No meio da viagem, porém, resolvi passar um final de semana em Paris – aí sim foi aventura para mim na época. Comprei o ticket para o Eurotrem e embarquei só rumo à França sem falar uma palavra em francês: “Je ne parle pas français. Parlez-vous anglais?”

Em 2011 arrisquei sair sem intermediação: fiz um mochilão pela América Latina. Era “me, myself and I”, uma passagem de ida e de volta pela Viasur (aérea boliviana), um roteiro passível de modificações e uma mochila nas costas. Não reservei absolutamente nada. Cheguei em La Paz e resolvi pegar um ônibus rumo à Copacabana – a cidade do famoso Lago Titicaca. Confesso que quando entrei no ônibus e vi aquelas “cholas” nos bancos apertados me olhando com cara de interrogação quase pensei em descer e pegar um ônibus turístico. Não o fiz e foi uma experiência fantástica – apesar de eu achar que o busão ia deslizar ladeira abaixo na estrada em volta de um morro.

A viagem pela América Latina incluiu Peru (Cusco, Machu Picchu e Arequipa), Chile (Arica e São Pedro do Atacama) e a tradicional viagem de três dias pelo deserto rumo à Bolívia, passando pelo Salar de Uyuni. Não me senti só. Fiz amigos em hostels e passeios em grupos.

Em 2013 foi a vez do México e Cuba. Na Cidade do México senti-me um pouco insegura e, de tanto as pessoas me alertarem dos perigos, deixei de fazer alguns passeios por ser mulher e estar sozinha. Em Cuba não foi fácil: o país não tinha internet na época e os cubanos são extremamente machistas e xavequeiros. Não me deixavam em paz – mas era só “da boca pra fora”, pois o país é bastante seguro. Sei lá quantas vezes me perguntaram: “está viajando sozinha? Cadê seu namorado?

A última aventura foi agora, aos 30 anos, no final de 2016. Fui para a Tailândia e para a Índia – 35 dias e muita história para contar. De novo eu estava namorando e ele não podia ir junto. Queria muito ir – e fui só! A Tailândia é um país bastante turístico e não senti barreira alguma por estar sozinha. Na Índia tive medo, muito medo. Tanto que me conectei com outras brasileiras pela internet e me encontrei com elas.

Antes disso, passei uma semana sozinha em Rishikesh – a capital mundial da yoga. A cidade é uma exceção na Índia, um país extremamente machista que não vê com bons olhos mulheres que andam sozinhas à noite. Apesar daquela cidade ser mais segura, eu não saí do ashram (local do retiro espiritual) após o escurecer. Eu também tive que comprar roupas folgadas para me sentir bem nas ruas… Nas outras cidades indianas eu estava em companhia de minhas colegas brasileiras – e juntas nos unimos para fazer a viagem mais exótica de nossas vidas.

No Brasil eu já fui pra “tudo quanto é canto” sozinha e nunca hesitei. Eu não tenho medo e até gosto da minha própria companhia. Talvez eu seja uma exceção, mas o pensamento positivo ajuda a acreditar que vai ficar tudo bem. Sempre tomo muito cuidado e acho lamentável nós mulheres termos que nos afirmar para dizer que fazemos sozinhas uma coisa que deveria ser vista como normal.

Torço para que cada vez mais mulheres se encorajem a fazer o mesmo para que a exceção deixe de existir e a regra seja: viajar como e quando quiser, independente do gênero e da companhia. Afinal de contas, viajar é bom demais, né?

Mari Campos
Jornalista especializada em viagem e turismo, é autora do livro Sozinha Mundo Afora. Já esteve em todos os continentes e escreve suas aventuras no Maricampos.com 

Viajei sozinha pela primeira vez para outro país quando já era casada (me casei bem novinha, logo que terminei a faculdade) e já tinha visitado muitos países diferentes. Eu ainda era CLT, nossas férias daquela vez não bateram e, como eu nunca concebi a ideia de não viajar nas férias, resolvi ir sozinha. Não tive medos ou receios nessa primeira experiência; naquela época, a viagem de avião em si me deixava mais apreensiva que todo o resto – planejei minha viagem solo com o mesmo cuidado com que planejávamos nossas viagens em casal e embarquei.

E foi já nessa primeira viagem solo que a sensação de liberdade, de ser dona do meu nariz, falou mais alto que todo o resto. Descobri, até nas tomadas de decisão mais difíceis, que gostava muito de passar um tempo em minha própria companhia – e que era absolutamente empoderador estar o tempo todo no controle da viagem e tomar todas as decisões por mim mesma.

Depois dela, muitas e muitas e muitas viagens solo vieram e continuam vindo até hoje — algumas a trabalho, outras a lazer. Estive sozinha em países de todos os continentes e até mesmo na Antártica  – incluindo diversos países africanos, países árabes mais ou menos conservadores, Índia e tantos outros lugares que ainda são tabu para muitas mulheres que viajam sozinhas. E muitas amigas (casadas ou solteiras) se inspiraram e começaram a adotar viagens solo aqui e ali em suas agendas de viagens também.

Mas, que fique claro, continuo planejando cuidadosamente minhas viagens, sem exceção, e mantenho constantemente o mesmo nível de alerta “on” , independentemente do destino que estiver visitando. E não tenho pudores em pedir ajuda quando acho que preciso.

Se eu me sinto solitária quando viajo sozinha? Nunca. De verdade verdadeira. Sou daquele tipo que gosta bastante de ficar sozinha mas também adora socializar; cada coisa a seu tempo. Não precisa muito para bater papo com outras pessoas no café, no metrô, na fila do museu, no aeroporto – “gente” é o que eu mais amo sobre viajar. E quando viajamos sozinhos de fato nos abrimos mais para o outro, para jogar conversa fora, para conhecer gente nova. Voltei com pelo menos um bom amigo de cada viagem que fiz e isso é uma das coisas que mais me deixa feliz como viajante.

Se eu tenho medo quando viajo sozinha? Também não. Mas eu costumo dizer que me pauto muito por gerencia de riscos – inclusive nas viagens. E isso é muito importante. Ou seja: eu antes leio, pesquiso, estudo sobre os lugares que vou visitar; in loco, presto atenção em sons, luzes, cheiros, nas pessoas e tudo o que me rodeia. Também nunca deixo meus pertences dando bobeira nem vou dando informações sobre mim a um(a) desconhecido(a). Até as tentativas de assédio a gente aprende a tirar de letra. E esse tipo de “feeling” a gente vai mesmo desenvolvendo mais quanto mais vai viajando – sem contar que, no quesito zelar pela própria segurança, sendo brasileira a gente já é mesmo naturalmente meio craque nisso.

Dentro do meu estilo de viajar (que sempre foi o mesmo, estando sozinha ou acompanhada) o que eu mais busco é extrair experiências incríveis de um lugar; então nao me privo de fazer nada nem de ir a lugar nenhum “por ser mulher” nem por estar viajando sozinha. Para ser bem honesta, algumas das experiências mais autenticas e memoráveis que já tive em toda essa minha vida viajante aconteceram justamente em ocasiões em que viajava solo. O primeiro passo para todas elas foi… embarcar 🙂

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Gente que viaja :: Carolina Owsiany, a worldpacker

Carol entre Israel e Jordânia, em viagem de 2014. Foto: Arquivo pessoal

Carol entre Israel e Jordânia, em viagem de 2014. Foto: Arquivo pessoal

Por que não? Essa expressão simples, e bastante desafiadora, foi repetida diversas vezes durante a conversa que tive com a mochileira profissional Carolina Owsiany. Ela viaja o mundo há mais de 10 anos, trabalhando em hostels, restaurantes e bares, e já fez e refez sua vida de diferentes formas desse meio tempo. A história parece sempre ter sido essa: vai para um lugar novo, curte, vive, cansa e resolve mudar. Na dúvida, se pergunta “por que não?”. E a resposta vem tranquilamente.

Conheci a Carol durante um evento corporativo. Ela vestia terninho preto e salto alto e me impressionou com seu inglês fluente e a postura séria e profissional. Dois meses depois, a encontrei num contexto completamente diferente: era uma noite fria de maio, ela estava enrolada em uma coberta sentada em uma poltrona, super à vontade com amigos e colegas do WE Hostel, em São Paulo, onde ela estava vivendo e trabalhando.

As versões corporativa e mochileira coexistem – na verdade, uma não existiria sem a outra. Há mais de um ano ela trabalha em hostels no esquema do Worldpackers, uma plataforma em que viajantes podem encontrar vagas de trabalho em troca de hospedagem. Vale de tudo: há opções para ficar na recepção, fazer faxina e até colocações mais cool, como chef de cozinha, DJ, fotógrafo de eventos ou gerente de redes sociais. É um jeito novo e bastante interessante de viajar, garantir a hospedagem e ter uma troca intensa de cultura e experiências.

La vie en Hostel, em Londres, 2013. Foto: Arquivo pessoal

La vie en Hostel, em Londres, 2013. Foto: Arquivo pessoal

No entanto, a maioria dos trabalhos do Worldpackers não são remunerados. O pagamento é a hospedagem em si, às vezes inclui café da manhã e outros benefícios, mas só. O esquema já ajuda a economizar, mas não dá para viver só disso por muito tempo sem nenhuma reserva. O jeito é fazer como a Carol: aproveitar o tempo livre para fazer outros bicos – daí que surge sua versão corporativa ;-). “Nos próprios hostels às vezes tem oportunidades, como trabalhar em festas promovidas no local. Mas eu faço trabalhos paralelos, como traduções e eventos”.

No caso dela, o Worldpackers só facilitou o processo do que já vinha fazendo há anos: rodar o mundo trabalhando com hospitalidade – seja em albergue, hotel, restaurante, pub ou balada. Depois de se formar em Comunicação, há mais de 10 anos, ela saiu de Minas Gerais e foi passar um tempo na Espanha, em sua primeira viagem internacional. Foi para a região da Galícia, se hospedando na casa de familiares, depois seguiu para Barcelona meio na loucura, sem planejamento nenhum. Chegou em pleno feriado, durante a festa La Mercè, quando a cidade estava lotada, e por pouco não ficou sem lugar para dormir.

Após conseguir a hospedagem, tudo foi acontecendo naturalmente. Logo arrumou um trabalho em uma balada, encontrou um apartamento e assim as coisas foram rolando. “Hoje eu já digo que as coisas dão certo porque me planejo, mas no começo foi sorte e acredito também na proteção divina espiritual. Acho que é essa confiança que me fortalece para encarar desafios e estar segura, por isso tudo sempre fluiu pra mim”, conta. Foi desse jeito leve e fluído que acabou indo pra Bélgica depois: fez amizade com belgas, ouviu falar bem e pronto, resolveu ir pra lá.

Romance 

Olhar apaixonado entre Carol e Anthony, em Barcelona, 2010. Foto: Arquivo Pessoal

Olhar apaixonado entre Carol e Anthony, em Barcelona, 2010. Foto: Arquivo Pessoal

E quando menos esperava, no auge do seu desprendimento, acabou se apaixonando. Conheceu o Anthony, chef de cozinha inglês que, assim como ela, estava dando suas voltas pelo mundo. Logo depois que começaram a ficar, ela embarcou para a Grécia para cumprir um compromisso de trabalho que já tinha sido combinado antes do romance surgir. “Na Grécia eu tive o time of my life, trabalhava em bares, era incrível. Mas a gente continuou se falando e eu não tava afim de ter um relacionamento a distância. Um dia pensei: eu gosto dele, não dá mais. Em um impulso, comprei uma passagem e voltei para Bruxelas”, lembra.

A viagem de volta foi uma loucura, tudo às pressas, quase como se fosse questão de vida ou morte. “Cheguei às 2h da manhã e liguei pra ele do lado de fora do pub onde ele estava. Falei como se estivesse na Grécia ainda, dizendo que estava com saudades. Quando resolvi me declarar, eu que queria fazer uma surpresa, tive uma: ele apareceu na janela e me viu do lado de fora bem na hora que disse ‘te amo”. Foi muito emocionante, ele gritou, ficou louco. Pra mim, foi naquele momento que a gente casou”.

Tudo isso aconteceu há 9 anos. Desde então não se desgrudaram mais e são grandes companheiros de vida, aventuras e viagens. “A gente é muito flexível. Com uma graninha no banco, já nos programamos para cair no mundo e acaba dando certo. Sempre me planejei, mas não precisamos de muito dinheiro. Quando chegamos num país novo conseguimos trabalho fácil”, explica ela.

Casal em estação de esqui em Andorra, país europeu localizado entre o nordeste da Espanha e o sudoeste da França. Foto: Arquivo pessoal

Estação de esqui em Andorra, país localizado entre o nordeste da Espanha e o sudoeste da França. Foto: Arquivo pessoal

A trajetória do casal é inspiradora. Eles moraram 2 anos na Bélgica, depois quase 4 anos na Espanha e mais 3 na Inglaterra, sem contar as viagens para Israel, Jordânia e alguns países da África. A última temporada do casal tem sido no Brasil. Carol não morava aqui desde que saiu de Minas e, junto com o Anthony, tem explorado hostels de diversos cantos do país no esquema Worldpackers. O melhor é que eles conseguem encontrar trabalho para os dois no mesmo estabelecimento. “Assim que entro em contato com o proprietário, já aviso que meu marido é chef e geralmente conseguimos duas vagas”.

É claro que para quem vê de fora, é fácil pensar que esse tipo de vida é encantador e cheio de glamour – afinal, quem é que não sonha em rodar o mundo? Mas só quem vive é que sabe que morar em hostel não é um mar de rosas. “Tem que ter cabeça aberta, ser flexível para dividir o quarto e a vida com outras pessoas. E cada um tem um momento, então eventualmente saem faíscas. Tem que ser maduro o suficiente para pedir desculpas e ser humilde”, alerta Carol.

Desapego

Os viajantes e suas mochilas chegando em Caraíva, na Bahia, em 2016. Foto Arquivo pessoal

Os viajantes e suas mochilas chegando em Caraíva, na Bahia, em 2016. Foto Arquivo pessoal

Estar aberto a mudar de emprego, de cidade e de país mostram um desprendimento em relação a vida, aos lugares e às pessoas. Para passar por tantas transformações radicais é necessário permitir que as mudanças aconteçam e também provocá-las. No caso da Carol e do Anthony, isso também se reflete no estilo de vida deles em relação aos bens materiais. Quando perguntei “onde ficam suas coisas?”, ela falou: “então, não tem coisas“. Oi?

Pois é. Em sua última grande mudança – da Inglaterra para o Brasil – o casal fez uma limpeza pesada e se livrou de tudo – livros, roupas, móveis, acessórios etc. “Com o tempo, fomos acumulando coisas, é claro, mas o que facilita é que na Europa os apartamentos já são mobiliados. É um mundo que faz você ser mais desapegado e a ter flexibilidade”.

O mochilão em que levou suas roupas do Brasil para a Europa em sua primeira viagem é o mesmo que utiliza até hoje – “só que agora está bem mais vazio”, ressalta. “Você aprende, a vida te ensina que você não precisa de muito para viver. Todo o resto ficou pelo caminho. O dia que tiver que recomeçar de novo a gente recomeça, o que vale é o que a gente leva no coração”, conclui.

Carol na janela ao lado de uma estátua "namoradeira" em algum canto do Brasil, em 2007. Foto: Arquivo pessoal

Carol na janela ao lado de uma estátua “namoradeira” em Ouro Preto (MG), em 2007. Foto: Arquivo pessoal

Gente que viaja :: Antonio da Patagônia

Seu Antonio, hoje guia e motorista na Patagônia, já viajou o mundo. Foto: Débora Costa e Silva

Seu Antonio, hoje guia e motorista na Patagônia, já viajou o mundo. Foto: Débora Costa e Silva

Quando entrei na van para sair da região de Torres del Paine, no Chile, e seguir rumo ao aeroporto de Punta Arenas em uma viagem de quatro horas, estava pronta para dar um cochilo, ouvir música e relaxar. Faria isso tranquilamente se não tivesse notado que o motorista chileno falava português super bem, quase sem sotaque. Fiquei instigada e comecei a puxar papo.

No começo foi difícil, porque a primeira impressão é de que ele era meio rabugento, sério, daqueles que não tá afim de conversar. Mas ele foi respondendo as minhas perguntas e quando me dei conta, ele já estava resgatando histórias e memórias por conta própria, empolgado de lembrar de seus tempos no Brasil.

Antonio dirigindo de Puerto Natales até Punta Arenas, onde mora há 4 anos. Foto: Débora Costa e Silva

Antonio dirigindo até Punta Arenas, onde mora há 4 anos. Foto: Débora Costa e Silva

Ele morou por quatro anos no Rio de Janeiro entre os anos 1981 e 1985 para fazer faculdade de Hotelaria – inspirado e incentivado por sua mãe, que trabalhou a vida toda em companhias aéreas, entre elas a extinta Varig. Segundo Antonio, ela o ajudou a fazer a transição para o Brasil para estudar, já que não havia esse curso ainda no Chile. Do tempo em que viveu no Rio, suas lembranças mais queridas e saudosas são dos carnavais que desfilou pela Mangueira. Ele participou de todos os ensaios, aprendeu até a tocar surdo e integrou a bateria.

Mas não parou por aí. Por conta da profissão, ele carimbou muito seu passaporte e sua carteira de trabalho. Antonio já viveu na Venezuela, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana e Trinidade, além das diversas vezes que foi aos Estados Unidos e para o Canadá. Nesses lugares, já foi guia turístico, guia de selva, instrutor de mergulho e parapente, trabalhou em hotéis e atuou como motorista-guia turístico inúmeras vezes – como agora na Patagônia, onde vive há 4 anos com a esposa.

“Sou ávido por informação. Estou sempre lendo, estudando e fazendo cursos – o último foi o da Conaf (Corporação Nacional Florestal), no Parque Torres del Paine”. Além da busca por conhecimento, fiquei curiosa para saber mais sobre o que o motiva a viajar e mudar tanto de um lugar para o outro. “Um ano inteiro fazendo um mesmo roteiro todos os dias cansa. Quando aparecia uma outra oportunidade, eu não pensava duas vezes. Eu me identifico com os cachorros. Aquela coisa de sair por aí andando sem rumo, meio vagabundo, sabe? Então, eu sou um deles”.

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Lago Sarmiento com vista para as Torres del Paine, na Patagônia Chilena. Foto: Débora Costa e Silva

Enquanto a paisagem na janela mudava e o vento ganhava mais força conforme avançávamos para o sul, seu Antonio foi mostrando cada vez mais seu lado sensível, sereno e filosófico. Questionei então o que queria saber desde o início: por que viver na Patagônia? Segundo ele, a escolha foi da mulher, que é apaixonada por glaciares e também é guia de turismo. Enquanto ele fala inglês, francês e português, ela complementa o currículo de idiomas do casal com alemão e japonês.

Eles moram há quatro anos em Punta Arenas, longe do filho mais velho, que estuda cinema em Santiago, mas ainda próximos ao caçula, que estuda teatro ali na região. “Fico aqui porque é cômodo e confortável. Agora com família, casado e filhos grandes, a vida está mais tranquila”, explica.

Mas não acha muito vazio? “Não, acho perfeito. Depois de morar em Santiago, qualquer lugar é gostoso. O pessoal que mora lá está sempre estressado, correndo, no metrô as pessoas ficam espremidas que nem sardinha em lata. Aqui estou muito bem. É uma das mil razões que viemos para cá”, defende.

A vida social é escassa na Patagônia. Se o tempo está bom, ele e a esposa fazem churrasco e recebem os poucos amigos que fizeram por aquelas bandas. Afinal, para um forasteiro, é difícil criar vínculos com quem nasceu e viveu na região a vida toda. Nas horas vagas, gosta de se dedicar ao jardim de sua casa, ler e pescar – e já está de bom tamanho.

Para encerrar, Antonio me falou uma das frases mais bonitas e melancólicas que já ouvi. “A solidão é impagável. Porque não há silêncio quando se mora em uma cidade tão grande, os pensamentos são praticamente compartilhados com os outros, estamos sempre cercados de gente. Quando se é jovem, é importante sair e ter vida social. Mas depois de um tempo, muito barulho já não dá mais. Muita poluição visual também não é bom. Por isso eu prefiro morar aqui”, concluiu.

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“A solidão é impagável”, diz o seu Antonio sobre escolher viver na Patagônia. Foto: Débora Costa e Silva

Gente que viaja :: Pancho do Atacama

Francisco Gonzales – ou Pancho – tem apenas 19 anos e já é guia turístico no Atacama desde os 16. É especialista em plantas e ervas – mas é modesto. “É porque quem vive no deserto valoriza mais o verde”.

Começou a guiar turistas graças a um programa das escolas da região, que oferecem curso e estágio em turismo durante o ensino médio. Pensou em estudar agricultura, mas achou que com turismo ele teria mais oportunidade de conhecer uma variedade maior de plantas e ecossistemas.

Durante os passeios que fiz guiada por ele, Pancho explicou bastante coisa sobre as peculiaridades do Atacama: como se formam os cristais de sal e de gesso, as rochas e dunas, falou sobre os frutos e plantas também e até sobre pinturas rupestres.

Além de conhecer bem a região, o rapaz é super atencioso com todo o grupo. Perdeu a explicação? Ele volta, repete e sempre termina o tour com a trinca: perguntas, dúvidas, reclamações?

Seu plano para quando acabar os estudos e a temporada do hotel que trabalha, o Tierra Atacama, é cair na estrada. Nada mais natural para quem lida diariamente com viajantes e é apaixonado pela natureza. Já está marcado: em março do ano que vem pretende percorrer o Chile de norte a sul.

Nesse tempo como guia, ele disse que aprendeu com os hóspedes do hotel cultura e sofisticação e, com os mochileiros, desprendimento. “Para mim, basta uma mochila e uma harmônica (gaita) para cair na estrada”.

Assista o Pancho tocando sua harmônica.

Cuba :: Humans of Havana

Mais do que paisagens ou museus, uma das coisas mais interessantes de uma viagem são as pessoas locais que conhecemos e que influenciam completamente a percepção que temos de um lugar. Em Cuba, esse contato humano é ainda mais presente – no meu caso por dois motivos: a curiosidade que eu tinha em relação ao estilo de vida dos cubanos (como vivem, o que pensam etc) e a simpatia e alegria natural desse povo.

Claro que lá pro fim da viagem, eu e meu amigo Daniel começamos a cansar da abordagem excessiva feita pelos locais. Sacamos que muitos abusam dessa abertura dos turistas e da fama do “cubano simpático” para abordar os visitantes com insistência, oferecendo de charutos a dicas de passeio em troca de dinheiro, um prato de comida ou roupas usadas – são os chamados jineteiros.

Mas o saldo final foi ultra positivo: conhecemos pessoas increíbles que marcaram nossa viagem e nossa vida. Mesmo aquelas que cruzamos e trocamos poucas palavras ou só observamos passar nas ruas e nas praias. Tem aquelas que ficaram só na memória, mas muitas tive a sorte de registrar em fotos. Seguem algumas delas, feitas em Havana em novembro de 2010.

Flagra do cochilo do motorista da bicitáxi, em Havana. Foto: Débora Costa e Silva

Flagra do cochilo do motorista da bicitáxi, em Havana

Desfile carnavalesco nas ruas de Havana, com direito a banda de sopro e dançarinos em pernas de pau. Foto: Débora Costa e Silva

Desfile carnavalesco nas ruas de Havana, com direito a banda de sopro e dançarinos em pernas de pau

Cubana desfila pelas ruas de Havana

Barman do mítico La Bodeguita del Medio, em Havana, onde dizem ter o melhor mojito da ilha. Foto: Débora Costa e Silva

Barman do mítico La Bodeguita del Medio, em Havana, onde dizem ter o melhor mojito da ilha

Carroças ainda servem de transporte em Cuba

“Ai, Brasiiiil!” é o que ela estava falando na hora da foto. Chegamos em uma feirinha de artesanato no morro em frente a Havana e a turma que estava lá fez a festa ao saber que éramos brasileiros. Nosso amigo Jardiel até ensinou ela a sambar

Miguel, de 9 anos, gastou um tempão conversando com a gente, ensinando uns passos de reggaeton e posando para as fotos. Super querido. Foto: Débora Costa e Silva

Miguel, de 9 anos, passou um tempão conversando com a gente, ensinando uns passos de reggaeton e posando para as fotos. Super querido! Leia mais sobre o Miguel no relato do Daniel Ribeiro.

Músico de rua cego na porta do bar La Bodeguita del Medio

Um clássico de Cuba: músicos de rua que, não contentes em tocar o instrumento, também vão atrás de mulheres turistas entoando canções românticas e elogiosas. O jeito foi dar risada e fazer uma foto, porque o escândalo foi tanto que fiquei com vergonha! Deu vontade de pagar só para ele parar, coitado. Foto: Daniel Ribeiro

Um clássico de Cuba: músicos de rua que, não contentes em tocar o instrumento, também vão atrás de mulheres turistas entoando canções românticas e elogiosas. O jeito foi dar risada e fazer uma foto, porque o escândalo foi tanto que fiquei com vergonha! Deu vontade de pagar só para ele parar, coitado (Foto: Daniel Ribeiro)

Esse garotinho com sono me chamou a atenção no meio de uma multidão na fila da igreja para a missa. Achei lindo

Fotos: Débora Costa e Silva

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O que já rolou de Cuba aqui no Papetes:

O primeiro impacto ao chegar na ilha

Dicas de hospedagem em Cuba

Preparativos para ir a Cuba (moeda, agência, gastos etc)

Por que decidi ir a Cuba?

Gente que viaja :: Marito de Bariloche

Marito no balcão, na visita que fiz a Bariloche em 2012

Marito no balcão, na visita que fiz a Bariloche em 2012

Bariloche tem todo um significado para mim. Foi onde vi a neve e esquiei pela primeira vez, aos nove anos. Tive a oportunidade de voltar mais duas vezes. Na segunda visita, em 2012, procurei lugares que talvez eu pudesse lembrar da primeira vez em que estive lá. Foi uma missão difícil, pois eu era criança e a memória não me ajudou, sem contar que a cidade mudou muito. Mas dentre os lugares que pudessem ser familiares, uma lojinha me chamou a atenção.

Não posso afirmar se já estive lá quando era pequena, mas é bem provável, já que ela é uma das mais antigas em funcionamento, desde 1924. O tipo de suvenir vendido ali me lembrou os que eu e minha mãe trouxemos para casa na época – entre eles, um ímã com pedaço de madeira esculpida em formato oval com pinturas de bonecos de neve, montanhas e outros símbolos da região.

Outra coisa que me chamou a atenção foi o simpático senhor atrás do balcão. Sorridente, ele não deixa de cumprimentar ninguém que entra na loja. Mesmo enquanto está atendendo um cliente, ele olha em direção à porta e fala: “buenas tardes, aqui se encuentra lo mejor precio de Bariloche!”

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Nessa última visita, agora em junho de 2015, quando entrei na loja tive a sensação de já conhecer o lugar. Mas foi quando ele apareceu no balcão e me cumprimentou é que as memórias voltaram.

Mario – “para as mulheres Marito” – tem 84 anos, sendo que 42 deles viveu sem o cigarro. “É por isso que ainda estou vivo e saudável”, disse todo orgulhoso. “Trabalho de 10 a 12 horas por dia sem problema algum”. Outro motivo de orgulho é sua vida amorosa: casou-se cinco vezes! É muita saúde mesmo! “Pero… Agora vivo de recuerdos”, lamentou rs.

Nasceu, cresceu e viveu a vida toda em Bariloche e quando perguntei se já havia viajado bastante, ele foi enfático: “nem a palo, no me gusta!’ Mas por quê? “Tenho pavor de avião! Eu gosto é daqui, Bariloche é linda!”.

Mas já foi melhor. Ele se lembra da época em que a cidade era vazia e menos desenvolvida. “Agora tem muita gente, dos anos 70 em diante começou a lotar e hoje em dia tem muito pobreza, gente passando fome. Não tem trabalho para tanta gente assim”, comenta.

A loja foi fundada pelo seu pai e ele deu sequência ao trabalho, mas antes de assumir o balcão, curtiu muito as belezas de Bariloche atuando como fotógrafo. Ele acompanhava grupos e registrava as viagens desses turistas. Foi assim que conheceu a região de cabo a rabo. “Eu mesmo revelava, fazia tudo – e conheci muitas mulheres também”, conta aos risos.

Pedi para que escolhesse seu lugar preferido de Bariloche. Ele saiu e voltou com um papel enrolado na mão. Era uma foto ampliada do cerro El Tronador. Disse que é a montanha mais bonita que conhece e me deu a foto de presente para que um dia eu pudesse visitar.

Gente que viaja :: Fausto & Jacque

Nesse Dia dos Namorados, vou contar uma história de um casal que se conheceu viajando e desde então não se separou mais. Há dois anos eles exploram o mundo a bordo de um navio, animando os passageiros, trabalhando e vivendo juntos.

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Fausto

Sabe aquelas pessoas que têm o poder de atrair a atenção de todo mundo em uma roda de amigos? O Fausto é assim: conta histórias que parecem ora piada, ora filme de ação, imita tudo quanto é gente no melhor estilo Marcelo Adnet e sua alegria contamina qualquer um que está por perto.

Desde pequeno ele tinha essa habilidade com o humor – sei bem porque morávamos no mesmo prédio e convivemos bastante durante a infância e a adolescência. De lá para cá ele fez um pouco de tudo: foi jogador de futebol em times do interior de São Paulo, vendedor das Lojas Mel, integrou equipes de recreação de hotéis e pousadas e até estrelou um monólogo interpretando personagens e contando piadas – numa época que stand up comedy aqui no Brasil nem engatinhava.

Fausto caracterizado de um de seus personagens e, ao fundo, show do Sidney Magal

Fausto caracterizado de um de seus personagens e, ao fundo, show do Sidney Magal

Até que um amigo o indicou para um trabalho que tinha a cara do Fausto: ser animador em um cruzeiro. Sem falar nenhum idioma além do português nem nunca ter saído do país, ele embarcou para a Itália e começou a trabalhar em um navio da Costa Cruzeiros.

Isso foi há sete anos. Nesse meio tempo ele viajou por 37 países, levou seu irmão André (aka Dedé) para trabalhar junto (um animador e tanto também, pude conferir em um cruzeiro com ele :-)), passou por perrengues com a língua (hoje já domina espanhol e italiano) e até escapou de um incêndio no navio. Saiu da Costa, morou um tempo em Barcelona, depois em Cancún, até que voltou a navegar pela MSC.

Há apenas sete dias a bordo na nova empresa, ainda se recuperando de uma depressão (afinal, comediantes também têm fases difíceis), ele conheceu uma menina na piscina que havia acabado de embarcar. “Eu tinha jurado que não ia me envolver com ninguém tão cedo, mas olhei para aquela menina ali sozinha a e fiquei sonhando em namorar uma gata dessas”. Era a Jacque.

Jacqueline

A Jacque é irmã mais nova de uma das minhas melhores amigas da infância, a Juliana. Lembro dela pequenininha, linda, sempre alegre, carinhosa, mas desde cedo tinha personalidade forte. Anos depois, nos reencontramos no metrô voltando do trabalho e me surpreendi: estava ainda mais bonita, super comunicativa, continuava cheia de atitude, enfim, se tornou um mulherão!

Jacque, de vermelho, dançando e animando a galera do navio

Jacque, de vermelho, dançando e animando a galera do navio

Isso foi no final de 2012, quando ela era recém-formada em Publicidade, trabalhava em uma agência na Faria Lima e aos finais de semana fazia animação em festas infantis. Na época, estava providenciando a documentação para morar um tempo nos Estados Unidos para melhorar o inglês e ter uma experiência fora. Só que por conta de um sorteio, todos esses planos foram por água abaixo – literalmente.

Ela ganhou um vale-viagem em um evento da própria agência em que trabalhava. Como não queria gastar muito, pois estava economizando para ir aos EUA, e nenhuma de suas amigas poderia acompanhá-la, a Jacque resolveu fazer um cruzeiro curto de quatro noites. O roteiro era Santos-Ilhabela-Ilha Grande. Com a cara e a coragem, foi sozinha e assim que chegou ao navio, foi para a piscina enquanto esperava sua cabine ficar pronta.

“Na hora que bati o olho no Fausto, pensei: é ele! Não sei explicar, mas tive certeza de que ele era o homem da minha vida”, conta ela. Para provar, guarda até hoje a mensagem que enviou às suas amigas dizendo isso no momento em que o viu pela primeira vez. “Elas riram e acharam que eu estava ‘viajando’, óbvio”.

O romance

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Depois de muita troca de olhares e altas conversas, Jacque e Fausto estavam oficialmente encantados um pelo outro. As coisas que tinham em comum não paravam de aparecer e a vontade de ficar junto só crescia. Na segunda noite, rolou o primeiro beijo – e tudo escondido, já que ninguém da tripulação pode se envolver com passageiros.

Na quarta e última noite, eles ficaram de se encontrar na festa do navio, só que ele não apareceu. Duas horas da manhã e nada do Fausto. Até que a Jacque resolveu perguntar por ele para uma de suas colegas da animação. “Ué, você não soube? Ele machucou a perna e não tá conseguindo andar!”. A garota se mostrou um verdadeiro cupido e na hora armou um esquema para que os dois pudessem se ver e se despedir.

Apesar de terem trocado telefones, Jacque resolveu não criar muita expectativa e encarou aquilo como o fim. Mas nem deu muito tempo de ficar sofrendo por amor, não. Já no dia seguinte, o Fausto ligou para ela e disse: “O que você vai fazer amanhã? Quero que venha almoçar aqui em casa porque vou te apresentar como namorada para os meus pais”!

Pois é, a paixão de verão subiu a serra! O casal vingou e passou os três primeiros meses se encontrando com frequência – ela ia até Santos para aproveitar os desembarques do navio. E no Carnaval, pouco antes do Fausto seguir rumo a Europa, veio a proposta: vem comigo?

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A essa altura, ela já havia desistido de ir para os Estados Unidos, e a ideia de trabalhar com animação não era nada distante do que ela já fazia aqui no Brasil. Viajando pelo mundo então, melhor ainda. Aprontou a documentação toda e assim que ele a indicou na empresa, ela já estava com tudo pronto para partir.

Mas claro que teve mais um perrengue no meio do caminho. Em sua primeira viagem de avião, Jacque foi deportada em Roma e voltou para o Brasil aos prantos. Foi um momento desesperador, não conseguia falar com o Fausto, não teve como reverter a situação e até hoje não entende qual foi o problema. Somente um mês depois é que pode retornar, e dessa vez desembarcou e reencontrou seu namorado.

Desde então, eles dividem a cabine, as viagens, os shows, o trabalho e a vida. Bem humorados, eles formam uma dupla e tanto e já estão há dois anos e meio namorando. A primeira coisa que me veio à cabeça quando soube foi: como é passar tanto tempo junto? Eles dizem que não é fácil, e que assim como todos os casais, tem dias e dias. “Mas a gente forma uma parceria boa, só de olhar já sabemos o que o outro tá pensando, o que precisa, o que falta”, conta a Jacque.

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Nesse último mês, pude vê-los juntos algumas vezes e, além de ter ficado feliz pela coincidência de ter dois amigos de infância, de universos diferentes, namorando, dá um orgulho enorme ver o rumo que a vida dos dois tomou.

Destemidos, eles se jogaram no mundo com tudo! Se arriscaram em uma nova profissão sem saber os idiomas necessários, superaram medos e inseguranças, mas em compensação viveram coisas que jamais haviam sonhado. E de todas as recompensas, terem se encontrado com certeza foi a melhor delas. ❤

Para encerrar, vou deixar uma pequena amostra do trabalho do Fausto e da Jacque na equipe de animação do MSC Preziosa. E para quem tem interesse nessa profissão, recomendo a leitura dessa entrevista feita com a Jacque.

Gente que viaja :: Sergio de Mendoza

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Sergio em seu jardim. Foto: Débora Costa e Silva

“Se van los montañeros, se van se van”. Essa é a musiquinha que um guia chileno me ensinou a cantar para me distrair das curvas incessantes da estrada que leva ao topo do Valle Nevado, perto de Santiago. Recorro a ela, pois vou contar a história de um montañero que também andou por aquelas bandas do Chile. A vida toda.

Mendoza-Santiago, Santiago-Mendoza. Argentina-Chile, Chile-Argentina. Toda semana era esse vai e vem durante a juventude de Sergio Aguillar Gimenez. Hoje com 92 anos, ele continua com duas casas, uma em cada cidade, mas considera a da Argentina sua fiel morada.

Sua vida era viajar, atravessar a cordilheira e conectar essas duas cidades, fosse de carro, caminhão, micro-ônibus ou até veículos que transportavam 40 passageiros. No início, levava gado de um país ao outro. Depois vieram os trabalhadores que precisavam cruzar a fronteira. E assim seguiu pra lá e pra cá.

A vida na estrada lhe permitiu expandir os horizontes. Sempre foi muito criativo: certa vez pensou que ventiladores fariam sucesso em Mendoza, onde o tempo quente e seco castiga no verão. Então foi lá na capital chilena comprar uma leva para revender e fazer um dinheirinho extra.

Sergio separando as uvas para produzir vinhos

Sergio separando as uvas para produzir vinhos

Cada hora inventava uma coisa. Além de motorista e empreendedor nato, também ganhava a vida como marceneiro e tinha hobbys interessantes: produzia vinho e criava flores híbridas, através do cruzamento de espécies.

Quando conseguia férias ou uma folga entre um trabalho e outro, escapava para a estrada. Veio muito ao Brasil, inclusive, onde morou durante parte de sua infância e tinha parentes e amigos no interior de São Paulo. Foi em uma dessas incursões que conheceu sua prima Nicolina, minha avó paterna.

A prima

A primeira vez que se encontraram foi em 1955. “Ele apareceu de surpresa na casa da minha tia, na Vila Nova Conceição, em São Paulo, procurando por familiares”, lembra minha vó. Anos depois, na década de 80, o Sérgio bateu na porta de sua casa, já no bairro da Saúde, a bordo de um furgão acompanhado de sua esposa Nena, dez anos mais nova.

Sergio e Nina no furgão que tinham para viajar nos anos 80

Sergio e Nena no furgão que tinham para viajar nos anos 80

“Não tinha lugar na casa para eles ficarem, então entrei no carro e os guiei até Mogi das Cruzes, para a casa dos meus pais. O furgão parecia uma Kombi adaptada, não tinha nem onde eu sentar, fui entre os dois bancos da frente”, conta aos risos.

Quando o Sergio fez essa visita, eu já tinha nascido, mas ainda era bebê. Acho que ele chegou a me ver, mas eu só o conheci de fato em 2013, quando fui para Mendoza a trabalho e encontrei uma brecha para ir atrás de seu paradeiro. Minha vó não tinha notícias dele há anos e temia até que já tivesse morrido, por isso pediu que eu o procurasse.

A busca

Ela me deu uma foto do Sergio. No verso escreveu dois endereços que tinha em sua agenda e pediu para tentar achá-lo. Consegui uma tarde livre no último dia da viagem e o fotógrafo Tony Miyasaka, que estava no grupo dos jornalistas, topou me acompanhar na busca.

O portãozinho branco onde fui tocar a campainha na esperança de encontrar o Sergio e... achei!

O portãozinho branco onde fui tocar a campainha na esperança de encontrar o Sergio e… achei!

Fomos de táxi até Godoy Cruz, distrito próximo de Mendoza, e paramos na primeira rua que tinha anotado. Só que o número não existia, então resolvi tocar a campainha no mais próximo.

Ninguém atendeu. A rua, aliás, estava deserta e silenciosa. Pensei até: será que tem alguém vivo por aqui? Na segunda casa, apareceu um cachorro latindo alto e bravo (já fiquei tensa) e a pessoa que nos atendeu não conhecia nenhum Sergio. Na terceira tentativa, demorou para aparecer alguém, mas finalmente nos deram uma informação: ele mora ali, na casa de portão branco.

Já animada, toquei a campainha, com a foto dele em mãos. Depois de alguns minutos, um senhor apareceu na janelinha do portão: era o próprio! Fiquei emocionada! Falei que era neta da Nicolina, do Brasil, e ele abriu o portão para a gente.

A visita

Passamos a tarde inteira lá. Tentei várias vezes ligar para a minha vó no Brasil e não consegui, mas fizemos fotos, o Tony gravou alguns vídeos da nossa conversa, a Nena nos serviu um café da tarde e fomos embora quase de noite.

Foto: Tony Miyasaka

Altos papos na sala de estar. Foto: Tony Miyasaka

Durante esse tempo, ele me contou um pouco de cada viagem que fez. A conversa foi meio atrapalhada – um pouco pelo idioma, um pouco por sua surdez. Mas sua memória ainda estava tinindo e ele vibrava a cada lembrança.

Ele contou que além de ter rodado a América Latina toda e ter visitado muitos lugares no Brasil, foi a Espanha três vezes – uma delas ficou por três meses e também saiu em busca de seus parentes. “O Sergio sempre foi muito família e viajava muitas vezes em função disso, de ir atrás de suas origens”, conta minha avó. Mas foi quando ele me mostrou uma foto dele esquiando que me encantei de vez.

Dois anos depois desse encontro, eu já me esqueci de muitos detalhes da visita, então liguei pro Tony, que me recordou sobre a história do esqui. Pelo o que ele lembra, havia época em que não havia escola de esqui na região de Mendoza, nem equipamentos, e um dos sonhos do Sergio era esquiar. Ele fez que fez que convenceu uns caras do Exército a emprestarem seus esquis para poder brincar um pouco – e guardou essa foto aqui.

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Sergio esquiando. Foto: Arquivo pessoal

A queda

Uma hora paramos a conversa para conhecer seu jardim. Suas flores híbridas florescem por ali, logo ao lado de sua oficina de produção de vinho. Ele inclusive me deu uma garrafa para que eu levasse para a minha vó.

Voltando para a casa, resolvemos fazer uma foto com eles. Só que a Nena não queria aparecer de jeito nenhum. Depois de muito insistir, ela topou e posamos. E aí aconteceu uma das situações mais tragicômicas que já vivi. Comecei a sentir uma resistência, parecia que ela estava tentando se desvencilhar do meu abraço. Me puxava e eu puxava de volta, e depois de umas três vezes fazendo isso, eu percebi que não era ela, mas sim o Sergio que estava desequilibrado e caindo!

A foto pré-queda. Por Tony Miyasaka

A foto pré-queda. Por Tony Miyasaka

Tentei segurá-lo ao máximo, mas ele é muito pesado e a queda foi inevitável. Como foi caindo em câmera lenta, o impacto não foi tão grande, mas pela sua idade esse pequeno tombo já poderia ter causado um estrago. Acostumada com quedas ridículas de amigos da minha idade, confesso: a vontade na hora era rir, pois foi uma trapalhada e, quem diria, justo no momento da foto.

Mas logo percebi a gravidade da situação e fiquei super preocupada. Diz ele que não se machucou, mas vai saber, às vezes mesmo sem sentir a pessoa pode ter fraturado alguma parte do corpo e só descobrir depois. Bom, ele sobreviveu – e estava ótimo quando minha vó finalmente o reencontrou.

O reencontro

Minha vó e seu primo Sergio, em sua casa em Godoy Cruz, em Mendoza

Minha vó e seu primo Sergio, em sua casa em Godoy Cruz, em Mendoza

Quando voltei de viagem, mostrei a minha vó todas as fotos e vídeos. Ela se emocionou muito e me agradeceu. No fim, eu é que tenho que agradecer por ter me dado a chance de viver essa história e ter conhecido uma pessoa tão interessante.

O mais legal de tudo é que, um ano depois, minha vó embarcou para a Argentina e saiu do país pela primeira vez. Sim, ela foi para Mendoza reencontrar o Sergio e a Nena junto com seu outro primo Roni e sua esposa Jandira. Disse que foi emocionante e ficou feliz de ver que ele está melhor de saúde e continua falante e lúcido.

A história do Sergio é inspiradora. Em tempos em que o dinheiro era suado e viajar era tão mais difícil do que hoje em dia, ele fazia de tudo para cair na estrada e seguir em busca de suas origens, de sua família e visitar os amigos. E graças ao pedido da minha vó, pude viver um pouco disso também. Com uma foto na mão, saí em busca de um primo distante e encontrei ainda mais inspiração para continuar viajando.

Perdida no Brooklyn

Da série de vacilos da principiante que vos fala em Nova York, este foi o campeão: fui para o Brooklyn sem saber em qual estação descer. “Ah, qualquer lugar tem um Starbucks com wifi, um McDonalds ou um barzinho legal para passar a noite. Na pior das hipóteses eu ando um pouquinho, pergunto para um ou para outro e beleza, me viro. Afinal, Brooklyn é um bairro né? Só chegar e é isso aí”. Aham…

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O Brooklyn é gigantesco e não se resume a uma ou duas ou três estações de metrô. Não é a Vila Madalena, né? É gigantesco e tem microbairros, que não são tão micro assim, mas claro, para que ler antes? Se informar e planejar alguma coisa? Nããão. Vamos seguindo o feeling, andar sem rumo, vagar pela cidade… Como nos filmes, eu devia achar um oásis de coisas incríveis no meio do nada e ser feliz para sempre.

Óbvio que não! Minha vida pode até ser um filme, mas definitivamente o gênero não é comédia romântica. Eu até tinha dado uma olhada antes de sair do apartamento e anotei o nome de uma estação que parecia próxima a uma feirinha que rola de sábado. À tarde. Mas já eram 19h quando eu entrei no metrô rumo ao Brooklyn. “Mas ah, devo pegar o final da feirinha e o início do agito da noite, no mínimo”. Uma otimista…

Desci na tal estação e saquei que tinha algo de errado, pois apenas pessoas mais velhas, que deviam estar trabalhando até aquela hora, desciam ali. A galera jovem e alternativa ficou no trem e seguiu viagem. Bom, tudo bem, sem preconceitos, vambora. Saí da estação e o choque: tudo escuro. Só prédios residenciais. Logo vi um casal gay super descolado e resolvi seguir eles. Mas a cada quarteirão que passava, o negócio ficava mais e mais sinistro, escuro e silencioso. Não devia ser o caminho para a festa – ou pelo menos não uma festa que eu seria lá muito bem-vinda. Meia volta, volver.

Achei uma lojinha de conveniência e fiquei lá, procurando wifi e pessoas simpáticas para pedir informação. Não encontrei nenhum dos dois. Na verdade não testei a simpatia de ninguém, porque a minha vergonha de estar lá perdida era tanta, mas tanta, que preferi voltar quietinha pro metrô. Algo de muito errado eu tinha feito nesse rolê.

Peguei o trem e resolvi descer umas três estações para frente. E lá estava o vagão, cheio de jovens descolados de novo. Agora vai! Mas aí uns desceram em uma estação, outros em outra, outros na próxima e aí desci também. Mas acho que eles deviam estar voltando do “lugar legal”, porque estavam todos dispersos, cada um ia para um lado. Ou talvez todos andem montados por lá mesmo, vai saber. Continuei envergonhada demais para perguntar qualquer coisa para alguém. Afinal, o que eu estava procurando? Nem eu sabia. A ideia era chegar e descobrir um “lugar legal”, que definitivamente não era sinônimo de uma rua escura e vazia.

Me enchi de ânimo novamente e saí do metrô. Mas foi pior ainda: a única coisa iluminada era um posto de gasolina vazio em uma avenida enorme sem nenhum estabelecimento comercial, um bêbado e um mendigo. Estava decretado o insucesso da missão. Chega, era hora de voltar para Manhattan, para a confusão de luzes dos letreiros, para a muvuca e tentar encontrar algum programa legal para salvar meu sábado à noite. Ah, não tinha mencionado: era sábado à noite AND minha última noite na cidade. Dá para imaginar o tamanho da frustração, né?

Eis que voltei para o metrô, cabisbaixa e completamente derrotada, sem achar que tinha a menor condição sequer de achar o caminho de volta. E aí tive essa ideia genial de ir pedir ajuda à funcionária do metrô que estava dentro da cabine de vendas de bilhetes. O metrô (e seus funcionários simpáticos) era o meu porto-seguro. Fui perguntar como ia para o Soho. Ela não ouviu. Falei mais alto e vi uns gatos pingados da estação olharem para mim. Ela perguntou aonde exatamente do Soho eu queria ir e mais uma vez eu não sabia. Já não sabia de nada, só queria wifi de novo para refrescar minha memória, resgatar os lugares que eu havia lido sobre…

Ela parecia brava e irritada. Me perguntava se a estação X ficava perto de onde eu queria ir, falava que o trem correto não era aquele, que eu estava no lugar errado (sim, disso eu já sabia!). E ela falava cada vez mais alto, sua voz ecoava na estação quase vazia – não suficientemente vazia para eu não passar vergonha, claro. Até que uma hora eu tomei coragem e desisti, falei: deixa, eu vou indo e encontro no caminho um lugar legal.

E aí ela sorriu e falou: “você não faz a menor ideia do que quer fazer, não é? Faz o seguinte: passa ali na primeira catraca, volta para casa e vai descansar. Não precisa pagar”. O quê? Quase entrei na cabine pra abraçar a mulher. Eu já estava exausta e me sentindo a pior das turistas e isso me derreteu. Passei, voltei e acabei descendo na estação mais certa possível: dei de cara logo com três bares que havia anotado e deixado para pesquisar assim que tivesse wifi. Foi a recompensa e o que salvou minha noite – além, claro, da funcionária invocada, porém querida, do metrô do Brooklyn.

Em tempo: Se você leu até aqui e só queria saber WTF eu queria fazer no Brooklyn, não vou te deixar na mão. A ideia era ter ido no Fort Greene Flea, que rola das 10h às 17h – e eu, como boa brasileira, vi esse horário e pensei: ah, deve estar tão animado que devem prolongar até mais tarde. Não. Caia. Nessa. Outro adendo: durante o inverno não rola, deve voltar a funcionar só em abril.

Humans of New York :: Galera do metrô

O que era para ser um texto com um resuminho de cada pessoa que conheci em NY, virou um post solo do Hedilberto. É, me empolguei rs. Como os outros não têm assim taaaanto detalhe para contar, vou tentar agrupar. Por isso mesmo o post deve ficar longo, pre-para!

Após péssimas experiências no metrô de Paris – muito por vacilo meu de não saber que precisava guardar os passes para não levar uma multa de 50 euros, mas também muito por conta da extrema má vontade e antipatia dos parisienses (mesmo eu dando Bon Jour e falando em francês que só sabia falar inglês) – não esperava, nem espero mais, grande receptividade em qualquer outro lugar. O que vier é lucro e em Nova York o saldo foi bem alto.

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Funcionário do metrô 1

Assim que venci a máquina de compra de bilhetes e adquiri meu Metrocard, tinha que desvendar o cabuloso mapa de linhas do metrô da cidade para descobrir como ir para a estação 50th. Tava lá tentando encontrar um sentido no emaranhado colorido do mapa, eis que apareceu o faxineiro do metrô e perguntou para onde eu ia, me indicou qual sentido eu deveria ir e falou: essa não é a sua plataforma. Desce, vire à direita, depois à esquerda, sobe a escada e vire à direita. Ok, obrigada, fui. No meio do caminho, encontrei ele de novo que falou sorrindo: “agora é à direita, hein? Não vai se perder!”. Eu não pedi nada e o cara já veio me ajudar e fazer graça. Nova York 1 x Paris 0.

Brazilian fan

Voltando do Queens, estava com o mapa do metrô aberto estudando o meu trajeto quando sentou um cara do meu lado e me perguntou se eu sabia se aquele trem ia para uma estação X. Disse que, como ele poderia ver, eu era turista e tampouco sabia se havia pegado o trem certo para mim. Daí começamos a conversar e pasmem: ele falava português.

Namorou por três anos uma alagoana que foi tentar a vida em Nova York, mas como ele não assumia nada mais sério, a garota trocou ele por outro e guess what? Agora ele quer voltar e pretende visitá-la em Maceió. Esses enredos só mudam de endereço, né?

O papo ia muito bem até percebermos que o trem não ia nem para o meu lado, nem para o dele. Tivemos que sair da estação e procurar outra entrada do metrô na rua. De repente parecíamos velhos amigos andando pela rua, um zuando com a cara do outro. Apesar de ter nascido em Nova York, ele mora cada hora em um lugar e disse que toda vez que vai a cidade tem que reaprender a andar por ali. Até agora não sei se isso foi papo dele e ele não é de lá, ou se realmente é tão fácil de se perder em NY, porque mesmo não dominando o idioma e o metrô, eu é que acabei achando o trajeto que ele devia fazer para voltar para casa.

Em uma viagem sozinha, encontrar um figura desses, perdido e engraçadão, é um prato cheio. Até me esqueci que estava all-by-my-self!

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Daí que mesmo não estando em Paris, minha relação com o metrô continuou desfavorável e eu fiz o favor de perder o meu bilhete no final do primeiro dia que o comprei. Só que isso já era o final da viagem, ou seja, só teria dois dias para usufruir do passe de 7 dias, que custava cerca de 30 dólares. Parabéns para mim. Cogitei só andar a pé, mas poxa, logo agora que já tinha sacado como funcionava o negócio…

Bom, lá fui eu comprar novamente o bilhete mas aí vi uma funcionária toda engraçadona na catraca e resolvi perguntar para ela se havia algum outro esquema mais favorável. Olha, só faltou me pegar no colo! Ela explicou que eu não precisava comprar outro daqueles, era só comprar um e carregar com quantas passagens eu fosse usar, foi comigo até a maquininha, me mostrou todas as opções, me arrumou um macete de não ter que colocar o Zip Code, me mostrou como eu devia carregar nas próximas vezes e ainda deu a dica do trajeto do dia.

Foi nessa hora que lembrei de Paris e, uau, quanta diferença! Lá eles só respondiam o que a gente perguntava, se muito! Em NY era o contrário: eles falavam tudo, o que a gente queria saber e o que a gente nem fazia ideia, mas precisaria saber! E ainda faziam piada, sorriam… comovente! Tudo bem que eu me senti uma criança boba e ingênua depois de tanta explicação óbvia, mas tá valendo, ela foi fofa.

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Apesar de não ter sido fofinha nem meiga, essa foi a mais generosa de todas da galera do metrô: me deixou passar de graça pela catraca após perceber que eu estava completamente perdida no Brooklyn. Mas isso é uma longa história que fica para o próximo post.