Perdida no Brooklyn

Da série de vacilos da principiante que vos fala em Nova York, este foi o campeão: fui para o Brooklyn sem saber em qual estação descer. “Ah, qualquer lugar tem um Starbucks com wifi, um McDonalds ou um barzinho legal para passar a noite. Na pior das hipóteses eu ando um pouquinho, pergunto para um ou para outro e beleza, me viro. Afinal, Brooklyn é um bairro né? Só chegar e é isso aí”. Aham…

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O Brooklyn é gigantesco e não se resume a uma ou duas ou três estações de metrô. Não é a Vila Madalena, né? É gigantesco e tem microbairros, que não são tão micro assim, mas claro, para que ler antes? Se informar e planejar alguma coisa? Nããão. Vamos seguindo o feeling, andar sem rumo, vagar pela cidade… Como nos filmes, eu devia achar um oásis de coisas incríveis no meio do nada e ser feliz para sempre.

Óbvio que não! Minha vida pode até ser um filme, mas definitivamente o gênero não é comédia romântica. Eu até tinha dado uma olhada antes de sair do apartamento e anotei o nome de uma estação que parecia próxima a uma feirinha que rola de sábado. À tarde. Mas já eram 19h quando eu entrei no metrô rumo ao Brooklyn. “Mas ah, devo pegar o final da feirinha e o início do agito da noite, no mínimo”. Uma otimista…

Desci na tal estação e saquei que tinha algo de errado, pois apenas pessoas mais velhas, que deviam estar trabalhando até aquela hora, desciam ali. A galera jovem e alternativa ficou no trem e seguiu viagem. Bom, tudo bem, sem preconceitos, vambora. Saí da estação e o choque: tudo escuro. Só prédios residenciais. Logo vi um casal gay super descolado e resolvi seguir eles. Mas a cada quarteirão que passava, o negócio ficava mais e mais sinistro, escuro e silencioso. Não devia ser o caminho para a festa – ou pelo menos não uma festa que eu seria lá muito bem-vinda. Meia volta, volver.

Achei uma lojinha de conveniência e fiquei lá, procurando wifi e pessoas simpáticas para pedir informação. Não encontrei nenhum dos dois. Na verdade não testei a simpatia de ninguém, porque a minha vergonha de estar lá perdida era tanta, mas tanta, que preferi voltar quietinha pro metrô. Algo de muito errado eu tinha feito nesse rolê.

Peguei o trem e resolvi descer umas três estações para frente. E lá estava o vagão, cheio de jovens descolados de novo. Agora vai! Mas aí uns desceram em uma estação, outros em outra, outros na próxima e aí desci também. Mas acho que eles deviam estar voltando do “lugar legal”, porque estavam todos dispersos, cada um ia para um lado. Ou talvez todos andem montados por lá mesmo, vai saber. Continuei envergonhada demais para perguntar qualquer coisa para alguém. Afinal, o que eu estava procurando? Nem eu sabia. A ideia era chegar e descobrir um “lugar legal”, que definitivamente não era sinônimo de uma rua escura e vazia.

Me enchi de ânimo novamente e saí do metrô. Mas foi pior ainda: a única coisa iluminada era um posto de gasolina vazio em uma avenida enorme sem nenhum estabelecimento comercial, um bêbado e um mendigo. Estava decretado o insucesso da missão. Chega, era hora de voltar para Manhattan, para a confusão de luzes dos letreiros, para a muvuca e tentar encontrar algum programa legal para salvar meu sábado à noite. Ah, não tinha mencionado: era sábado à noite AND minha última noite na cidade. Dá para imaginar o tamanho da frustração, né?

Eis que voltei para o metrô, cabisbaixa e completamente derrotada, sem achar que tinha a menor condição sequer de achar o caminho de volta. E aí tive essa ideia genial de ir pedir ajuda à funcionária do metrô que estava dentro da cabine de vendas de bilhetes. O metrô (e seus funcionários simpáticos) era o meu porto-seguro. Fui perguntar como ia para o Soho. Ela não ouviu. Falei mais alto e vi uns gatos pingados da estação olharem para mim. Ela perguntou aonde exatamente do Soho eu queria ir e mais uma vez eu não sabia. Já não sabia de nada, só queria wifi de novo para refrescar minha memória, resgatar os lugares que eu havia lido sobre…

Ela parecia brava e irritada. Me perguntava se a estação X ficava perto de onde eu queria ir, falava que o trem correto não era aquele, que eu estava no lugar errado (sim, disso eu já sabia!). E ela falava cada vez mais alto, sua voz ecoava na estação quase vazia – não suficientemente vazia para eu não passar vergonha, claro. Até que uma hora eu tomei coragem e desisti, falei: deixa, eu vou indo e encontro no caminho um lugar legal.

E aí ela sorriu e falou: “você não faz a menor ideia do que quer fazer, não é? Faz o seguinte: passa ali na primeira catraca, volta para casa e vai descansar. Não precisa pagar”. O quê? Quase entrei na cabine pra abraçar a mulher. Eu já estava exausta e me sentindo a pior das turistas e isso me derreteu. Passei, voltei e acabei descendo na estação mais certa possível: dei de cara logo com três bares que havia anotado e deixado para pesquisar assim que tivesse wifi. Foi a recompensa e o que salvou minha noite – além, claro, da funcionária invocada, porém querida, do metrô do Brooklyn.

Em tempo: Se você leu até aqui e só queria saber WTF eu queria fazer no Brooklyn, não vou te deixar na mão. A ideia era ter ido no Fort Greene Flea, que rola das 10h às 17h – e eu, como boa brasileira, vi esse horário e pensei: ah, deve estar tão animado que devem prolongar até mais tarde. Não. Caia. Nessa. Outro adendo: durante o inverno não rola, deve voltar a funcionar só em abril.

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Humans of New York :: Galera do metrô

O que era para ser um texto com um resuminho de cada pessoa que conheci em NY, virou um post solo do Hedilberto. É, me empolguei rs. Como os outros não têm assim taaaanto detalhe para contar, vou tentar agrupar. Por isso mesmo o post deve ficar longo, pre-para!

Após péssimas experiências no metrô de Paris – muito por vacilo meu de não saber que precisava guardar os passes para não levar uma multa de 50 euros, mas também muito por conta da extrema má vontade e antipatia dos parisienses (mesmo eu dando Bon Jour e falando em francês que só sabia falar inglês) – não esperava, nem espero mais, grande receptividade em qualquer outro lugar. O que vier é lucro e em Nova York o saldo foi bem alto.

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Assim que venci a máquina de compra de bilhetes e adquiri meu Metrocard, tinha que desvendar o cabuloso mapa de linhas do metrô da cidade para descobrir como ir para a estação 50th. Tava lá tentando encontrar um sentido no emaranhado colorido do mapa, eis que apareceu o faxineiro do metrô e perguntou para onde eu ia, me indicou qual sentido eu deveria ir e falou: essa não é a sua plataforma. Desce, vire à direita, depois à esquerda, sobe a escada e vire à direita. Ok, obrigada, fui. No meio do caminho, encontrei ele de novo que falou sorrindo: “agora é à direita, hein? Não vai se perder!”. Eu não pedi nada e o cara já veio me ajudar e fazer graça. Nova York 1 x Paris 0.

Brazilian fan

Voltando do Queens, estava com o mapa do metrô aberto estudando o meu trajeto quando sentou um cara do meu lado e me perguntou se eu sabia se aquele trem ia para uma estação X. Disse que, como ele poderia ver, eu era turista e tampouco sabia se havia pegado o trem certo para mim. Daí começamos a conversar e pasmem: ele falava português.

Namorou por três anos uma alagoana que foi tentar a vida em Nova York, mas como ele não assumia nada mais sério, a garota trocou ele por outro e guess what? Agora ele quer voltar e pretende visitá-la em Maceió. Esses enredos só mudam de endereço, né?

O papo ia muito bem até percebermos que o trem não ia nem para o meu lado, nem para o dele. Tivemos que sair da estação e procurar outra entrada do metrô na rua. De repente parecíamos velhos amigos andando pela rua, um zuando com a cara do outro. Apesar de ter nascido em Nova York, ele mora cada hora em um lugar e disse que toda vez que vai a cidade tem que reaprender a andar por ali. Até agora não sei se isso foi papo dele e ele não é de lá, ou se realmente é tão fácil de se perder em NY, porque mesmo não dominando o idioma e o metrô, eu é que acabei achando o trajeto que ele devia fazer para voltar para casa.

Em uma viagem sozinha, encontrar um figura desses, perdido e engraçadão, é um prato cheio. Até me esqueci que estava all-by-my-self!

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Daí que mesmo não estando em Paris, minha relação com o metrô continuou desfavorável e eu fiz o favor de perder o meu bilhete no final do primeiro dia que o comprei. Só que isso já era o final da viagem, ou seja, só teria dois dias para usufruir do passe de 7 dias, que custava cerca de 30 dólares. Parabéns para mim. Cogitei só andar a pé, mas poxa, logo agora que já tinha sacado como funcionava o negócio…

Bom, lá fui eu comprar novamente o bilhete mas aí vi uma funcionária toda engraçadona na catraca e resolvi perguntar para ela se havia algum outro esquema mais favorável. Olha, só faltou me pegar no colo! Ela explicou que eu não precisava comprar outro daqueles, era só comprar um e carregar com quantas passagens eu fosse usar, foi comigo até a maquininha, me mostrou todas as opções, me arrumou um macete de não ter que colocar o Zip Code, me mostrou como eu devia carregar nas próximas vezes e ainda deu a dica do trajeto do dia.

Foi nessa hora que lembrei de Paris e, uau, quanta diferença! Lá eles só respondiam o que a gente perguntava, se muito! Em NY era o contrário: eles falavam tudo, o que a gente queria saber e o que a gente nem fazia ideia, mas precisaria saber! E ainda faziam piada, sorriam… comovente! Tudo bem que eu me senti uma criança boba e ingênua depois de tanta explicação óbvia, mas tá valendo, ela foi fofa.

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Apesar de não ter sido fofinha nem meiga, essa foi a mais generosa de todas da galera do metrô: me deixou passar de graça pela catraca após perceber que eu estava completamente perdida no Brooklyn. Mas isso é uma longa história que fica para o próximo post.