Rio de Janeiro :: Museu do Amanhã + Grafites + MAR

Museu do Amanhã visto do mirante do MAR (Museu de Arte do Rio). Foto: Débora Costa e Silva

Museu do Amanhã visto do mirante do MAR (Museu de Arte do Rio). Foto: Débora Costa e Silva

É difícil falar dessa nova atração do Rio sem entrar em um ciclo de deslumbramento (incrível, fascinante, lindo e por aí vai), mas vou tentar rs. É porque realmente o Museu do Amanhã é de impressionar, tanto por fora com sua arquitetura moderna e arrojada, quanto por dentro, com uma exposição interativa que abusa da tecnologia de um jeito bem diferente do que já vi em outros espaços culturais no Brasil. Não à toa, foi o museu mais visitado do país em 2016 – muito por conta também dos Jogos Olímpicos, claro, mas não duvido que siga no topo da lista nos próximos anos.

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Na verdade, toda a zona portuária do Rio, chamada de Porto Maravilha e onde está o museu, atraiu muitos turistas durante os eventos esportivos porque também passou por uma mega reforma e revitalização. Há agora o VLT (Veículo Leve sobre os Trilhos), um bonde elétrico todo moderno que circula por ali, melhorando o acesso à região. Tem também outro museu bem legal, o MAR (Museu de Arte do Rio), murais de grafites, espaços culturais itinerantes, food trucks… É um outro destino dentro do Rio, tinindo de novo e que vale a pena visitar ;-).

Arquitetura do museu

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Eu estava bem curiosa para ver de perto os detalhes do edifício do Museu do Amanhã, projetado pelo arquiteto espanhol Santiago Calatrava, que também assina a revitalização do porto de Buenos Aires, a Estação Oriente em Lisboa e o novíssimo Oculus, que abriga o Westfield Mall na área do World Trade Center, em Nova York. A cor branca, formas geométricas e um quê futurista são aspectos recorrentes nos seus trabalhos e estão presentes no museu carioca também.

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“A ideia é que o edifício fosse o mais etéreo possível, quase flutuando sobre o mar, como um barco, um pássaro ou uma planta”, disse o arquiteto no site do museu.

Segundo ele, a forma longilínea foi inspirada nas bromélias do Jardim Botânico e o prédio foi projetado de forma que se integrasse com a paisagem ao redor, deixando à mostra outros patrimônios e atrações no horizonte, como o Mosteiro de São Bento e o próprio MAR que fica logo ao lado.

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A prioridade do museu é a sustentabilidade e isso se reflete tanto no conteúdo da exposição quanto na própria construção e concepção do edifício, cercado por jardins e espelhos d’água.

Entre as ações estão a utilização de água da Baía de Guanabara no sistema de ar-condicionado e a captação de energia solar através de painéis instalados na cobertura – sem contar que o prédio tem bastante entrada de luz natural com enormes janelas de vidro por toda sua extensão.

A exposição

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Para evitar spoilers, fui para lá sabendo bem pouco do conteúdo da exposição para ser surpreendida. Então também não vou entrar muito em detalhes para não estragar o passeio de ninguém.

O que já sabia, e reforço por aqui, é que o museu é bastante interativo, tem diversos quizes e você ganha um cartão eletrônico na entrada para, ao longo do percurso, encostá-lo em painéis e registrar o conteúdo de cada um.

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O lance do “amanhã” tem a ver com o futuro do nosso planeta, colocando como tema central o meio ambiente. A todo momento somos instigados a refletir como estará o mundo daqui a alguns anos com poluição, consumo desenfreado, desmatamento etc.

A exposição promove uma espécie de viagem no tempo para nos mostrar de onde viemos, o que somos hoje e para onde vamos se continuarmos nesse ritmo por meio de imagens em painéis de diferentes formatos – alguns que vão até o teto e causam um impacto pela grandeza, outros menores espalhados em salas temáticas. Todo o conteúdo é dividido em cinco etapas: Cosmos, Terra, Antropocentro, Amanhã e Nós.

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A primeira parte do tour foi um dos pontos que mais gostei de toda a exposição. Ao entrar, vamos para uma sala redonda que exibe um filme em 360º, produzido por Fernando Meirelles, com imagens impressionantes do espaço, do planeta Terra, animais e florestas.

Assim que entrei, já fui logo procurando uma cadeira, mas uma amiga que já tinha ido lá deu a dica de deitar em umas almofadas no chão para aproveitar melhor a exibição, feita nas paredes e no teto da sala – e é realmente uma experiência e tanto, dá para esquecer onde se está e viajar junto.

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Também fiquei impactada com a beleza da instalação “Fluxos”, do artista Daniel Wurtzel. São tecidos flutuantes que parecem dançar no ar, com música e jogos de luzes, representando o encontro dos quatro fluxos terrestres: continentes, mares, ventos e luz.

É uma das coisas mais bonitas e poéticas que já vi, poderia ficar lá a tarde toda sem cansar – até porque o movimento é contínuo e não se repete, a cada segundo se vê novas formas dos véus se entrelaçando e voando pela sala.

A única coisa que complica na visita é que é tanta, mas tanta informação que fica difícil de absorver tudo. O impacto rola e nos faz repensar atitudes, mas são muitos números e detalhes que acabam esquecidos depois. Vale ir sem pressa para conseguir ler e aproveitar a maior quantidade de painéis possível, porque é realmente muita coisa – ou então desencanar e fazer um tour mais light.

Grafites no Porto

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Em tempos em que se discute muito sobre arte urbana e grafite – tendo em vista o que rolou em São Paulo no início da nova gestão da Prefeitura -, foi uma experiência bem gratificante passear por diversos murais lindíssimos na área do Porto, logo ao lado do museu. Bem em frente aos trilhos da linha do VLT, estão vários casarões abandonados cheios de cor, mostrando que com arte um lugar ganha novos ares mesmo.

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MAR – Museu de Arte do Rio

Depois de um longo dia de caminhada – afinal, o dia começou para mim no Recreio e até chegar na região central, lá se foram mais de 2 horas, com parada de almoço inclusive -, deram 17h e não tive tempo de conhecer o MAR.

Mas a boa notícia do dia foi descobrir que pelo menos o mirante ainda estava aberto para o público e poderia ser visitado sem ter que pagar a entrada. E vale a pena: é lá de cima que se tem uma das vistas mais bonitas da área nova do porto, com o Museu do Amanhã e a ponte Rio Niterói no horizonte <3.

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:: Serviço Museu do Amanhã ::

Horários: Terça a domingo, das 10h às 18h
Localização: Fica na Praça Mauá, a 10 minutos da estação de metrô Uruguaiana, mas outra opção é descer nas estações Carioca ou Cinelândia e pegar o VLT até a estação Parada dos Museus.
Ingressos: Às terças-feiras é gratuita a entrada. Nos outros dias, a inteira custa R$ 20 e meia R$ 10 – residentes do Rio podem pagar meia entrada levando os documentos específicos (aqui tem mais detalhes). O melhor é garantir e comprar antes pela internet para evitar filas gigantescas e dar com a cara na porta.
Sitehttps://museudoamanha.org.br

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Escala Cultural :: Edward Hopper

"Nighthawks", de Edward Hopper

“Nighthawks”, de Edward Hopper

Já parou para pensar quão melancólico pode ser um posto à beira da estrada? Quando fazemos uma pausa durante uma viagem, e acabamos parando em qualquer lugar que tenha banheiros limpos e um lanche honesto, é que podem vir à tona reflexões profundas sobre para onde ir, o que deixamos para trás e por aí vai. Esses intervalos podem causar também uma forte sensação de solidão, afinal, se está no meio do nada e longe de tudo.

No livro “A Arte de Viajar”, de Alain de Botton, há um capítulo inteiro dedicado a esse momento da viagem. Além desses postos de gasolina com lanchonetes, o autor discorre também sobre outros lugares de transição, como aeroportos, estações de trem e até mesmo quartos de hotel.

"Hotel Room" - Edward Hopper

“Hotel Room” – Edward Hopper

“As viagens são parteiras de pensamentos. Poucos lugares são mais propícios a conversas internas do que um avião, um navio ou um trem em movimento”, afirma. E são mesmo – quem nunca teve ideias brilhantes ou fez promessas a si mesmo durante uma viagem?

É por me identificar com essas reflexões que achei tão interessante as obras do pintor e ilustrador americano Edward Hopper (1882-1967), apresentadas neste capítulo do livro de Botton. Muitas de suas pinturas retratam pessoas solitárias – algumas delas em hotéis, estradas, postos, lanchonetes, cafeterias, vagões e paisagens de trens.

"Chair Car" - Edward Hopper

“Chair Car” – Edward Hopper

“As figuras de Hopper parecem distantes de casa; estão sentadas ou de pé, sozinhas, contemplando uma carta à beira da cama de um hotel ou bebendo num bar; observam um trem em movimento pela janela do quarto ou leem um livro no saguão de um hotel. Seus rostos são vulneráveis e introspectivos. Talvez tenham deixado alguém ou tenham sido deixados; estão em busca de trabalho, sexo ou companhia, à deriva em lugares transitórios”, reflete Botton.

"Automat" - Edward Hopper

“Automat” – Edward Hopper

Hopper era um pintor realista e, por conviver com os artistas da Escola Ashcan (movimento que buscava retratar cenas do cotidiano de Nova York) acabou sofrendo algumas influências. Um dos líderes do grupo era Robert Henri, com quem teve aula. Henri era politizado e queria que a arte fosse semelhante ao jornalismo.

Mas só de observar as obras de Hopper dá para ver que elas trazem algo mais do que apenas fatos ou representações de cenas cotidianas. Em uma época que se buscava enaltecer o glamour e os benefícios vida urbana, seus quadros mostram lugares vazios e/ou pessoas solitárias, ou seja, pagava-se um preço pelo progresso.

"Night Windows" - Edward Hopper

“Night Windows” – Edward Hopper

Ele começou ganhando dinheiro com ilustrações para revistas e jornais, chegando a fazer trabalhos para agências publicitárias e tudo. Só passou a ganhar a vida com suas obras após os 40 anos. Mas até chegar lá viajou muito – algo que se reflete bastante em suas pinturas, já que um dos principais temas é viagem.

Foi para Paris três vezes, onde teve contato com as obras de Rembrandt e a poesia de Baudelaire – fato destacado por Botton no livro, onde ele fala da atração de ambos por motéis à beira da estrada e pela vida urbana, por exemplo. Hopper também viajou bastante dentro dos Estados Unidos, tendo atravessado o país de cabo a rabo mais de cinco vezes.

"Morning Sun" - Edward Hopper

“Morning Sun” – Edward Hopper

Entre tantas idas e vindas, passou por inúmeros postos de gasolina, quartos de hotéis, botecos e deve ter sentido toda a liberdade e a solidão que a vida na estrada pode oferecer. Mesmo realistas, suas pinturas traduzem tudo isso. Viajar é maravilhoso, sim, o que não significa que não tenha lá uma boa dose de melancolia também – nas partidas, nas chegadas e até nas paradas.

Se Edward Hopper usasse Instagram e outras redes sociais

Se Edward Hopper usasse Instagram e outras redes sociais – Nastya Ptichek

PS: Uma artista fez releituras das obras de Hopper, como se os personagens retratados em seus quadros estivessem deprimidos nos dias de hoje, buscando companhias e consolo  nas redes sociais. Uma delas é essa imagem acima. Veja as outras.

Rio de Janeiro :: Parque Lage

Foi amor à primeira vista. A descoberta do Parque Lage foi em 2010, e desde então virou meu xodó do Rio. Toda vez que vou, dou um jeito de passar por lá, comer a torta de maçã, tomar um expresso e fingir que sou rycah a vida é essa maravilha por algumas horas.

Foi bom enquanto durou: minha amiga Larissa me avisou que o D.R.I. Café, onde eu comia a tal tortinha, fechou :-(. No lugar, abriu o bistrô Plage, que segundo o site d’O Globo oferece café da manhã também, mas tem cardápio próprio de almoço, chef e produtos orgânicos. Será que gourmetizou? Na próxima visita vou experimentar e conto por aqui!

Mas vamos ao que interessa: reuni aqui as fotos que fiz de todas essas visitas ao parque – e em cada uma delas, tive uma descoberta nova ou surpresa! ❤

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O parque mistura uma série de coisas bacanas: tem a arquitetura do palácio, a Escola de Artes Visuais, as flores e plantas do jardim e um café * instalado no centro da construção principal para se deliciar em meio ao passeio. Ah sim, e o Cristo Redentor lá no alto do Corcovado compondo o cenário.

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Mas como assim palácio? Pois é, a história começa lá em 1811, quando o terreno de um antigo de engenho de açúcar foi comprado por um senhor chamado Rodrigo de Freitas Mello e Castro (lembrou da Lagoa? É isso mesmo, tem tudo a ver). Ele contrata o paisagista inglês John Tyndale para projetar os jardins no estilo europeu, que hoje servem também para abrigar piqueniques.

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Em 1859, Antônio Martins Lage adquire a chácara. Depois de um passa-e-repassa nas mãos de vários outros proprietários, seu neto, Henrique Lage, consegue reaver a propriedade da família em 1920. Ufa, 61 anos depois!

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Daí em diante foi só festa. Lage convidou o arquiteto italiano Mario Vodret para projetar o palacete principal, sob grande influência de sua esposa, a cantora lírica Gabriella Besanzoni. O estilo da mansão seria eclético, misturando várias referências. Um dos salões do palácio é assim:

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Reparou no teto todo detalhado? Então chegue mais perto e veja bem:

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Em 1936, Gabriella fundou a Sociedade do Teatro Lírico Brasileiro e mais tarde, em 1948, convidou seus sobrinhos-netos a habitar o palácio. Nesta época, ela promovia festas de arromba, frequentadas pela alta sociedade carioca. Mas os dias de glória não foram eternos e a família acabou se endividando.

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Lage entregou boa parte de seus bens para o banco, mas não vendeu a chácara. Com a ajuda do então governador Carlos Lacerda, conseguiu que a propriedade fosse tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) como patrimônio histórico e cultural da cidade em 1957.

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O local continuou sendo referência para artistas até que em 1975 foi criada a Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Além de oferecer cursos, a instituição também promove exposições e apresentações artísticas diversas. Dá uma olhada nos corredores do pátio, cheios de quadros:

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Além dessas obras, há também outras manifestações artísticas , como essas placas:

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Ou ainda, se der sorte, pode encontrar umas intervenções temporárias pelo parque, como essas nuvens aqui:

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Eu não sabia nada disso quando visitei o local, fui descobrindo aos poucos e boa parte agora, para escrever o post. Essas informações servem só para dar mais uma pitada de sabor quando forem passear por lá. Mas sabendo de toda história ou não, o lance é que o lugar por si só tem um encanto e desperta o interesse dos visitantes por ser de tudo um pouco – além, é claro, da beleza de seus jardins e construções.

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O cafezinho no pátio do palácio foi uma das primeiras descobertas – junto com a já citada torta de maçã. Uma das vezes fui lá para tomar um brunch, que vinha com frutas e pãezinhos deliciosos.

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Na época, achei o preço salgado e o atendimento demorado. É que tinham poucos funcionários e muita gente para atender. Como agora o restaurante/café que fica no parque é outro, não sei quais são as comidinhas nem como é o serviço. Se alguém aí já conhece o Plage, conta mais nos comentários 😉

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E essa caverna doida? Achei lá pela terceira ou quarta visita e fiquei encantada! Olha só o que tem por dentro:

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Sim, é o aquário do Parque! Ele foi construído de um jeito super legal, tudo parece ser natural, feito em argamassa imitando pedras. Os vidros dos aquários se fundem à estrutura da “caverna”, que por fora leva troncos de árvores também. Ou seja, você se sente completamente imerso a natureza.

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Falando em natureza, a última surpresa que tive no Parque Lage foi esse macaquinho prego aí da foto. Topamos com ele pulando de uma janela para outra, com um pão na boca, provavelmente roubado da cozinha. Me lembrou o Abu, macaco do Aladdin, que vivia com seu pãozinho a tiracolo.

Mas o impacto que se tem ali, acho que para todos que visitam (e revisitam), é a entrada do pátio. Ali você se depara com um espaço belíssimo, uma piscina refletindo o céu azul e, ao olhar pra cima, ainda vê o Cristo lá na montanha na sua direção. Tipo assim (a foto não tá nada boa, mas o que vale é a intenção rs):

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Vai lá
Rua Jardim Botânico, 414 – Jardim Botânico
Tel: (21) 3257-1800
http://eavparquelage.rj.gov.br – não tem site do parque, só da escola

Fotos: Débora Costa e Silva