Escala cultural :: A Arte de Viajar

30175164Taí um livro de cabeceira para quem gosta de viajar – e de quebra pirar um pouquinho sobre o assunto. “A Arte de Viajar”, do Alain de Botton, é pra ler com lápis e ir grifando, porque tem muitas frases e sacadas legais. Melhor ainda é levar para ler durante uma viagem, de preferência longa, com várias horas de voo ou estrada, para entrar na piração e filosofar junto.

O autor discorre sobre alguns temas relacionados a viagem, contando histórias pessoais e misturando com experiências e escritos de autores e artistas consagrados que também já se debruçaram sobre o assunto. Ao longo do livro vamos descobrindo como algumas vivências na estrada influenciaram a vida e a obra de caras como Van Gogh, Charles Baudelaire, Gustave Flaubert e às vezes acabamos conhecendo outros (como foi o meu caso), como Edward Hopper, Alexander von Humboldt e John Ruskin.

Apesar de ter adorado o livro, confesso que demorei um pouco para engrenar. Não sei se foi o começo, com ritmo mais lento e muito descritivo, que acabou me desmotivando, mas caso isso também aconteça com você, eu garanto que vale a pena persistir. Depois do primeiro capítulo, já nos acostumamos com o estilo do autor e as histórias e os temas apresentados vão ficando mais interessantes.

Um post só não dá conta de tudo que tem de bacana nesse livro – tanto é que no meio da leitura não aguentei e fiz um texto só sobre a relação das obras do Edward Hopper (clique no nome para ler) com viagens. O autor divide os capítulos pelos seguintes assuntos: partida, motivações, paisagem, arte e retorno e há ainda ramificações de cada um deles. Pra facilitar, resolvi separar em tópicos as frases e sacadas mais interessante de cada tema (todas as citações são do próprio Alain de Botton, exceto quando há outro nome indicado):

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Na piscina do Parque Lage, no Rio de Janeiro. Foto: Débora Costa e Silva

Da expectativa
O autor começa contando como um simples panfleto promocional da ilha de Barbados pode influenciar uma pessoa a viajar – no caso ele próprio. E aí ele filosofa sobre o que esperamos de uma viagem e como a realidade pode frustrar, relacionando suas experiências com o romance “Às avessas”, de J-K Huysmans de 1884, em que o personagem principal divaga sobre esse mesmo assunto, cheio de sarcasmo e pessimismo.

“Se nossas vidas são dominadas pela busca da felicidade, talvez poucas atividades revelem tanto a respeito da dinâmica desse anseio – com toda a sua empolgação e seus paradoxos – quanto o ato de viajar. Ainda que de maneira desarticulada, ele expressa um entendimento de como a vida poderia ser fora das limitações do trabalho e da luta pela sobrevivência. Mas raramente se considera que as viagens apresentem problemas filosóficos – ou seja, questões convidando à reflexão além do nível prático. Somos inundados por recomendações sobre os lugares para onde viajar, mas pouco ouvimos sobre como e por que deveríamos ir”

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Na estrada, voltando do Rio para São Paulo. Foto: Débora Costa e Silva

Dos destinos de viagem
A transição de um lugar para o outro em uma viagem não é um assunto muito explorado por aí e me chamou a atenção ter um capítulo dedicado a isso no livro. O autor mostra seu fascínio por aeroportos e estações de trem, onde observa as pessoas, aviões, trens indo e vindo e divaga sobre deslocamento. Além disso, apresenta escritos do Charles Baudelaire sobre o assunto e analisa obras de Edward Hopper que retratam esses lugares de passagem (postos de estrada, quartos de hotéis etc).

“A vida é um hospital em que cada paciente está obcecado com a ideia de mudar de cama. Este quer sofrer em frente ao radiador, e aquele imagina que melhoraria se estivesse junto à janela. (…) Sempre me parece que estarei bem onde não estou, e essa questão sobre o deslocamento ocupa perenemente minha alma” – Charles Baudelaire

“Há também um prazer psicológico na decolagem, pois a rapidez da ascensão do avião é um símbolo exemplar de transformação. A demonstração de poder pode nos inspirar a imaginar mudanças análogas e decisivas em nossas vidas, a pensar que também poderíamos, um dia, lançar-nos por cima de muito do que hoje pesa sobre nós”

“As viagens são parteiras de pensamentos. Poucos lugares são mais propícios a conversas internas do que um avião, um navio ou um trem em movimento. Existe uma relação quase fantástica entre o que está diante de nossos olhos e os pensamentos que podemos ter: reflexões amplas podem requerer paisagens vastas; novas ideias, novos lugares. Reflexões introspectivas suscetíveis a empacar são auxiliadas pelo fluxo da paisagem”

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Na vila de Tzefat, em Israel. Foto: Débora Costa e Silva

Do exotismo
O que te encanta em um lugar? Se viajar fosse te levar para ver o mesmo que já tem em casa e na sua cidade, talvez não fosse lá tão interessante. É o novo, o diferente, o exótico, muitas vezes, que te marcam em um destino. Neste capítulo, o autor conta de sua viagem para Amsterdã e o que encontrou de diferente em relação a Londres, onde vive, intercalando com as experiências de Gustave Flaubert no Egito.

“Por que se deixar seduzir, em outro país, por algo tão pequeno quanto um portão? Por que se apaixonar por um lugar porque ali circulam bondes e as pessoas raramente usam cortinas em suas casas? Por mais absurdas que possam parecer as intensas reações provocadas por elementos estrangeiros tão pequenos (e calados), o padrão é ao menos conhecido em nossa vida pessoal. Também nela podemos ver-nos vinculando emoções amorosas à maneira como uma pessoa passa manteiga no pão ou nos voltando contra elas por suas preferências em matéria de sapatos. Condenar-nos por essas pequenas atenções é ignorar a riqueza de significados que pode estar contida nos detalhes”

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Viela gracinha em Madri. Foto: Débora Costa e Silva

Da curiosidade
Em uma viagem para Madri, o autor questiona a forma tradicional de explorar um destino turístico, com um guia apontando datas, números e fatos. O que isso nos acrescenta? Com base em um ensaio de Nietzche, ele filosofa sobre o que realmente nos atiça a curiosidade em cada lugar – spoiler: identificar o que se vê com sua vida, seja de forma pessoal ou relacionando com a sua própria cultura.

“Em vez de trazer 1.600 plantas, talvez voltemos de nossas viagens com uma coleção de pensamentos pequenos, despretensiosos, mas ‘enriquecedores da vida'”

“Um dos problemas em viagens é que vemos as coisas no momento errado, antes de termos uma chance de gerar a receptividade necessária e quando novas informações são, portanto, inúteis e fugidias como as contas de colar sem um fio que as prenda”

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Miguel Pereira, no interior do Rio. Foto: Débora Costa e Silva

Do campo e da cidade
Neste capítulo, o autor traz à tona questões sobre a necessidade de estarmos conectados à natureza e de darmos um tempo da vida caótica das cidades. Ele relata sua ida para Lake District, onde nasceu e viveu o poeta William Wordsworth. Ele explora os locais descritos em seus poemas enquanto filosofa sobre o impacto que uma viagem para o campo pode ter em nossas vidas.

“O poeta [William Wordsworth]  propôs que a natureza, que para ele abarcava, entre outros elementos, pássaros, córregos, narcisos e ovelhas, era um corretivo indispensável para os danos psicológicos infligidos pela vida urbana”

“Cenas da natureza têm o poder de nos sugerir certos valores – os carvalhos, dignidade; os pinheiros, resolução; os lagos, calma – e, de maneira discreta, podem agir como inspirações da virtude”

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Salar do Atacama e suas cores durante o pôr do sol. Foto: Débora Costa e Silva

Do sublime
Seguindo a toada do capítulo anterior, o autor continua a divagar sobre como a beleza e a grandeza de algumas paisagens naturais podem nos impactar – mas aqui ele reflete mais sobre a força da natureza do que sobre o choque entre cidade e campo. É sobre contemplar e entender nossa pequenez perante grandes monumentos, seja uma cachoeira, uma geleira, um deserto.

“As paisagens sublimes repetem, em termos solenes, uma lição que a vida cotidiana nos ensina cruelmente: o Universo é mais poderoso do que nós; somos frágeis e transitórios; não temos alternativa senão aceitar limitações à nossa vontade e precisamos nos dobrar a necessidades maiores do que nós mesmos.”

“Essa é a lição inscrita nas pedras do deserto e nas geleiras dos polos de maneira tão grandiosa que podemos voltar dessas paisagens inspirados, não esmagados, pelo que está diante de nós; privilegiados por obedecermos a necessidades tão majestosas. A sensação de assombro pode até evoluir para um desejo de adoração”

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Pôr do sol: campos de trigo próximos de Arles. 1888 – Van Gogh

Da arte que abre os olhos
Um dos capítulos mais bonitos e interessantes é sobre a ida de Van Gogh para a Provença e como este lugar influenciou sua pintura e o que ele viu ali de diferente e de encantador. Há cartas do pintor para familiares que dão pistas de como foi esse processo, além de detalhes da experiência do autor no destino. Uma pena que as imagens do livro são todas em preto e branco.

“Van Gogh, embora apaixonadamente interessado em produzir uma ‘semelhança’, insistia que não seria cuidando das proporções que transmitiria o que era importante no sul [da França]; sua arte envolveria, como ele disse, sarcástico, ao irmão, ‘uma semelhança diferente dos produtos do fotógrafo temente a Deus’. A porção da realidade que o interessava às vezes requeria distorção, omissão e substituição de cores para ser destacada, mas ainda assim era o real – ‘a semelhança’ – que o interessava. Ele estava disposto a sacrificar o realismo ingênuo para alcançar um realismo mais profundo, comportando-se como um poeta que, apesar de menos factual do que um jornalista na descrição de um acontecimento, pode, ainda assim, revelar verdades que não têm lugar na perspectiva literal do outro.”

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Um dos desenhos de John Ruskin

Da posse da beleza
Em tempos em que se fotografa tudo e muito, vale a reflexão desse capítulo sobre esse desejo de captar e guardar tudo de bonito e impactante que vemos. O autor apresenta as ideias de John Ruskin, que defendia o desenho como a melhor forma de registrar alguma cena – mesmo para quem não desenha “bem”. É que ao tentar desenhar, nossa atenção aos detalhes e a contemplação são muito maiores do que se apenas fizermos fotos. Achei sensacional.

“A partir de seu interesse pela beleza e por sua posse, [John] Ruskin chegou a cinco conclusões principais. Primeiro, a beleza resulta de uma variedade complexa de fatores que afetam a mente psicológica e visualmente. Segundo, os seres humanos têm uma tendência inata a reagir à beleza e desejar possuí-la. Terceiro, existem muitas expressões inferiores desse desejo, entre elas o desejo de comprar suvenirs e tapetes, de inscrever o próprio nome em colunas e de tirar fotografias. Quarto, existe apenas uma maneira de se apossar realmente da beleza, que é entendendo-a, tornando-nos conscientes dos fatores (psicológicos e visuais) responsáveis por ela. E, finalmente, a maneira mais eficiente para buscar esse entendimento consciente é pela tentativa de descrever lugares belos através da arte, da escrita ou do desenho, a despeito de termos ou não algum talento para tal”.

“Se o desenho tinha valor mesmo quando praticado por pessoas sem talento, era porque, segundo Ruskin, ele nos ensinava a ver: a reparar, em vez de simplesmente olhar. Nesse processo de recriar com as mãos aquilo que temos diante dos olhos parecemos mover-nos naturalmente de uma posição de observação despreocupada da beleza para outra em que adquirimos uma compreensão profunda de seus elementos constituintes e, portanto, lembranças mais formes dela”

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Minhocão fechado em um domingo, em SP. Foto: Débora Costa e Silva

Do hábito
Para fechar, por meio da obra do francês Xavier de Maistre (“Viagem ao redor do meu quarto”, escrito em 1790), o autor explora o conceito de viajar em seu próprio habitat. Acho que esse é sempre o conselho mais valioso quando se fala sobre viagem: abrir os olhos e explorar sua cidade ou bairro como se estivesse em uma viagem, atento aos detalhes e à beleza de coisas simples.

“(…) a obra de [Xavier] de Maistre emana de uma percepção profunda e sugestiva: o prazer que extraímos das viagens talvez dependa mais do estado de espírito em que viajamos do que do destino. Se pudéssemos aplicar o estado de espírito de quem viaja aos nossos lugares, constataríamos que esses lugares não são menos interessantes do que os desfiladeiros em montanhas altas e as florestas cheias de borboletas da América do Sul (…)”

“Mas o que é o estado de espírito de viajante? Pode-se dizer que a receptividade é sua principal característica. Aproximamo-nos de novos lugares com humildade. Não trazemos ideias rígidas sobre o que é interessante. Causamos irritação aos moradores locais porque paramos em trechos em obras da pista, obstruímos o caminho em ruas estreitas e admiramos o que eles consideram detalhes pequenos e estranhos. Corremos o risco de ser atropelados porque ficamos intrigados com o telhado de um prédio governamental ou com a inscrição de uma parede. Pensamos que um supermercado ou um salão de cabeleireiros é especialmente fascinante. Exploramos de forma interminável a apresentação de um cardápio ou as roupas dos apresentadores do noticiário noturno. Estamos atentos às camadas de história por baixo do presente, tomamos notas e tiramos fotos.”

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