Cuba :: O primeiro impacto e os clichês

Toda vez que falo sobre a sensação de “voltar no tempo” que Cuba traz para os visitantes, me sinto um pouco mentirosa. É porque eu mesma esperava sentir isso assim que chegasse lá, mas demorou um pouco para isso acontecer.

Um dos carros

Um dos carros “novos” que vimos circular por Cuba. Foto: Débora Costa e Silva

Assim que chegamos ao Aeropuerto Internacional José Martí, em Havana, fomos dar uma olhada na rua para ver Cuba pela primeira vez e então veio o choque: carros novos. Nem um, nem dois: todos os carros eram novos. Onde estavam os Cadillacs, os Bel-Air e tantos outros (que eu nem sei os nomes)? A única coisa que eu conseguia pensar era: cheguei tarde demais.

E a sensação só se confirmou quando passamos na casa de câmbio do aeroporto. Na fila, à nossa frente, havia um cubano. Eis que o celular dele (!) toca e o ringtone era a música que tocava em todas as baladas do momento (!!!). Como assim um cubano tem um celular que toca música atual? Era muito pra minha cabeça.

Ok, eu era bem ingênua e muito do que eu lia sobre Cuba era referente ao passado (revolução) ou à cultura. E também sabia que a ilha já havia mudado bastante desde a abertura turística. Mas ainda assim! Essas duas cenas já me passaram de cara o recado de que ali nada seria tão previsível ou de acordo com os clichês que tanto ouvia sobre a ilha.

O velho e o novo:  tem carro de tudo quanto é idade em Cuba. Foto: Daniel Ribeiro

O velho e o novo: tem carro de tudo quanto é idade em Cuba. Foto: Daniel Ribeiro

Depois encontrei, sim, os carros antigos e apesar de não ser vidrada em automóveis, era sempre emocionante entrar num carro e descobrir sua história – ou pelo menos de que ano era. Em Cuba, os carros são como imóveis, são patrimônio familiar, passados de geração para geração. Se quebrou, tem que arrumar, se vira.

Já os mais novos são destinados aos turistas que querem alugar um carro para circular pela ilha, ou ainda para quem trabalha de alguma forma na indústria do turismo. Nosso transfer mesmo não tinha nada de velho, era um veículo que podia ter visto em qualquer lugar do mundo.

Carros antigos estacionados perto do Capitólio, em Havana Velha. Foto: Débora Costa e Silva

Carros antigos estacionados perto do Capitólio, em Havana Velha. Foto: Débora Costa e Silva

Os antigos mais bonitões, conversíveis, coloridos e brilhantes, ficam nas áreas mais turísticas de Havana, como na Praça da Revolução e perto do Capitólio, ou ainda desfilando pelo Malecón. Mas viajando pelo interior do país pudemos ver os carros velhos-velhos mesmo, sem lá muito charme vintage e glamour. Em Santiago, do outro lado da ilha, as ruas chegam a ser esfumaçadas tamanha a poluição dos veículos.

Lojas da Adidas e da Puma no centro de Havana. Foto: Débora Costa e Silva

Lojas da Adidas e da Puma no centro de Havana. Foto: Débora Costa e Silva

Quanto à globalização (ou americanização) do povo, tivemos outros exemplos além da musiquinha do celular. Vimos vários cubanos usando camisetas e bonés de times de basquete e beisebol norte-americanos – provavelmente presentes de turistas ou de parentes que vivem em Miami. Encontramos lojas da Addidas e da Puma (que são alemãs, mas ainda assim me surpreendi) e achamos Coca-Cola em Santiago – depois em Varadero e em outros restaurantes mais caros também.

De qualquer forma, acredito que nada disso tenha comprometido a identidade cubana – pelo menos não até 2010, ano em que estive por lá. Hoje a influência dos EUA e da Europa deve ser ainda maior. Com a abertura política a caminho, então, a tendência é só aumentar. Provavelmente Cuba não trará mais a sensação de volta ao passado. Mas se vai melhorar, ou piorar, não dá pra saber. Vai ser só mais um capítulo da história que eu quero continuar acompanhando.

Vista a partir do Capitólio de Cuba, em Havana - uma das cenas que me fizeram

Vista a partir do Capitólio de Cuba, em Havana – uma das cenas que me fizeram “voltar no tempo”. Foto: Débora Costa e Silva

Por que escolhi ir para Cuba

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Ministerio del Interior na Plaza de la Revolución, em Havana

É difícil encontrar alguém que queira ir para Cuba que não tenha tido um pé na cozinha do Karl Marx. Caribe por Caribe, tem um monte de ilhas ali muito mais famosas pelas praias paradisíacas de mar azul. Ou pelo menos uma curiosidade saudável sobre como as coisas funcionam no país – acho difícil alguém de extrema direita querer ir para lá. Se não for minimamente simpatizante da revolução, pra quê ir? (Se for o seu caso, me conte!)

Comigo pelo menos foi assim. Eu nem lembro quando começou essa fissura por Cuba. Sei que na sétima série tinha um casal de professores que havia ido para lá – e isso era em 1999 – e eu achei incríveis as histórias que eles contavam – principalmente aquela coisa clássica de sentir que “voltou no tempo”. Talvez tenha sido neste momento que Cuba entrou para o meu radar.

No ano seguinte, fiz um seminário para a aula de História e meu grupo pegou os temas Revolução Russa e Chinesa, ou seja, fui me familiarizando com o socialismo. A professora era bem boa, estimulava discussões e provocava a galera nas aulas. E, claro, era pra lá de esquerda. Me identifiquei muito com os conceitos de igualdade social e comecei a me interessar por política. Virei vermelhinha.

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Da esq. para a dir.: estátuas de Camilo Cienfuegos, Fidel Castro e Che Guevara no Museu de la Revolución, em Havana

Sim, eu era dessas que defendia o PT, queria estar ao lado dos fracos e oprimidos e mudar o mundo. Usava camiseta do Che Guevara e lia Caros Amigos. Por um lado até que foi legal essa fase, eu era bem engajada. Ah, e na adolescência acho válido sonhar e ser idealista – já basta a vida adulta para te jogar doses diárias de baldes de água fria né?

Mas não foi só isso que me levou a ilha de Fidel. Tinha a música também, obviamente. Eu fazia aula de percussão, tocava de chocalho a atabaque, e o Mingo, meu professor, era mestre nos ritmos latinos. Fui aprendendo a base de vários estilos: salsa, rumba, chachacha, bolero e outros. Quanto mais ouvia, mais eu pirava.

Daí, naturalmente, veio a vontade de dançar salsa (ok, eu já estou morrendo de vergonha de contar tudo isso e quero desistir, mas vamos lá). Aprendi o básico e saía direto aqui em São Paulo para umas baladas latinas. A essa altura, não tinha como eu não ser obcecada por Cuba! Só precisava juntar dinheiro, ter férias e tava mais que decidido.

Músicos em cada esquina: um mito real de Cuba. Foto feita em Trinidad

Músicos em cada esquina: um mito real de Cuba. Foto feita em Trinidad

O mais louco é que voltei de saco cheio do Che Guevara e desse papo de revolução. Não que eu seja contra, o que passou, passou, ainda acho interessante toda a história. Mas lá você tem uma overdose sobre o tema e cansa falar e ouvir sobre isso. Sem contar que a maioria vive em condições precárias – apesar dos inegáveis benefícios na área de saúde e educação, ok.

E as paisagens, que antes eu nem dava bola, estão entre as coisas que mais me impressionaram. Não só a beleza das praias, mas também das construções históricas de Havana e Trinidad. Recomendo bem mais do que algumas ilhas caribenhas que de tão lotadas de resorts acabaram ficando quase sem identidade.

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Pôr do sol no Malecón, calçadão a beira do mar em Havana

Fotos: Débora Costa e Silva