Gente que viaja :: Fausto & Jacque

Nesse Dia dos Namorados, vou contar uma história de um casal que se conheceu viajando e desde então não se separou mais. Há dois anos eles exploram o mundo a bordo de um navio, animando os passageiros, trabalhando e vivendo juntos.

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Fausto

Sabe aquelas pessoas que têm o poder de atrair a atenção de todo mundo em uma roda de amigos? O Fausto é assim: conta histórias que parecem ora piada, ora filme de ação, imita tudo quanto é gente no melhor estilo Marcelo Adnet e sua alegria contamina qualquer um que está por perto.

Desde pequeno ele tinha essa habilidade com o humor – sei bem porque morávamos no mesmo prédio e convivemos bastante durante a infância e a adolescência. De lá para cá ele fez um pouco de tudo: foi jogador de futebol em times do interior de São Paulo, vendedor das Lojas Mel, integrou equipes de recreação de hotéis e pousadas e até estrelou um monólogo interpretando personagens e contando piadas – numa época que stand up comedy aqui no Brasil nem engatinhava.

Fausto caracterizado de um de seus personagens e, ao fundo, show do Sidney Magal

Fausto caracterizado de um de seus personagens e, ao fundo, show do Sidney Magal

Até que um amigo o indicou para um trabalho que tinha a cara do Fausto: ser animador em um cruzeiro. Sem falar nenhum idioma além do português nem nunca ter saído do país, ele embarcou para a Itália e começou a trabalhar em um navio da Costa Cruzeiros.

Isso foi há sete anos. Nesse meio tempo ele viajou por 37 países, levou seu irmão André (aka Dedé) para trabalhar junto (um animador e tanto também, pude conferir em um cruzeiro com ele :-)), passou por perrengues com a língua (hoje já domina espanhol e italiano) e até escapou de um incêndio no navio. Saiu da Costa, morou um tempo em Barcelona, depois em Cancún, até que voltou a navegar pela MSC.

Há apenas sete dias a bordo na nova empresa, ainda se recuperando de uma depressão (afinal, comediantes também têm fases difíceis), ele conheceu uma menina na piscina que havia acabado de embarcar. “Eu tinha jurado que não ia me envolver com ninguém tão cedo, mas olhei para aquela menina ali sozinha a e fiquei sonhando em namorar uma gata dessas”. Era a Jacque.

Jacqueline

A Jacque é irmã mais nova de uma das minhas melhores amigas da infância, a Juliana. Lembro dela pequenininha, linda, sempre alegre, carinhosa, mas desde cedo tinha personalidade forte. Anos depois, nos reencontramos no metrô voltando do trabalho e me surpreendi: estava ainda mais bonita, super comunicativa, continuava cheia de atitude, enfim, se tornou um mulherão!

Jacque, de vermelho, dançando e animando a galera do navio

Jacque, de vermelho, dançando e animando a galera do navio

Isso foi no final de 2012, quando ela era recém-formada em Publicidade, trabalhava em uma agência na Faria Lima e aos finais de semana fazia animação em festas infantis. Na época, estava providenciando a documentação para morar um tempo nos Estados Unidos para melhorar o inglês e ter uma experiência fora. Só que por conta de um sorteio, todos esses planos foram por água abaixo – literalmente.

Ela ganhou um vale-viagem em um evento da própria agência em que trabalhava. Como não queria gastar muito, pois estava economizando para ir aos EUA, e nenhuma de suas amigas poderia acompanhá-la, a Jacque resolveu fazer um cruzeiro curto de quatro noites. O roteiro era Santos-Ilhabela-Ilha Grande. Com a cara e a coragem, foi sozinha e assim que chegou ao navio, foi para a piscina enquanto esperava sua cabine ficar pronta.

“Na hora que bati o olho no Fausto, pensei: é ele! Não sei explicar, mas tive certeza de que ele era o homem da minha vida”, conta ela. Para provar, guarda até hoje a mensagem que enviou às suas amigas dizendo isso no momento em que o viu pela primeira vez. “Elas riram e acharam que eu estava ‘viajando’, óbvio”.

O romance

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Depois de muita troca de olhares e altas conversas, Jacque e Fausto estavam oficialmente encantados um pelo outro. As coisas que tinham em comum não paravam de aparecer e a vontade de ficar junto só crescia. Na segunda noite, rolou o primeiro beijo – e tudo escondido, já que ninguém da tripulação pode se envolver com passageiros.

Na quarta e última noite, eles ficaram de se encontrar na festa do navio, só que ele não apareceu. Duas horas da manhã e nada do Fausto. Até que a Jacque resolveu perguntar por ele para uma de suas colegas da animação. “Ué, você não soube? Ele machucou a perna e não tá conseguindo andar!”. A garota se mostrou um verdadeiro cupido e na hora armou um esquema para que os dois pudessem se ver e se despedir.

Apesar de terem trocado telefones, Jacque resolveu não criar muita expectativa e encarou aquilo como o fim. Mas nem deu muito tempo de ficar sofrendo por amor, não. Já no dia seguinte, o Fausto ligou para ela e disse: “O que você vai fazer amanhã? Quero que venha almoçar aqui em casa porque vou te apresentar como namorada para os meus pais”!

Pois é, a paixão de verão subiu a serra! O casal vingou e passou os três primeiros meses se encontrando com frequência – ela ia até Santos para aproveitar os desembarques do navio. E no Carnaval, pouco antes do Fausto seguir rumo a Europa, veio a proposta: vem comigo?

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A essa altura, ela já havia desistido de ir para os Estados Unidos, e a ideia de trabalhar com animação não era nada distante do que ela já fazia aqui no Brasil. Viajando pelo mundo então, melhor ainda. Aprontou a documentação toda e assim que ele a indicou na empresa, ela já estava com tudo pronto para partir.

Mas claro que teve mais um perrengue no meio do caminho. Em sua primeira viagem de avião, Jacque foi deportada em Roma e voltou para o Brasil aos prantos. Foi um momento desesperador, não conseguia falar com o Fausto, não teve como reverter a situação e até hoje não entende qual foi o problema. Somente um mês depois é que pode retornar, e dessa vez desembarcou e reencontrou seu namorado.

Desde então, eles dividem a cabine, as viagens, os shows, o trabalho e a vida. Bem humorados, eles formam uma dupla e tanto e já estão há dois anos e meio namorando. A primeira coisa que me veio à cabeça quando soube foi: como é passar tanto tempo junto? Eles dizem que não é fácil, e que assim como todos os casais, tem dias e dias. “Mas a gente forma uma parceria boa, só de olhar já sabemos o que o outro tá pensando, o que precisa, o que falta”, conta a Jacque.

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Nesse último mês, pude vê-los juntos algumas vezes e, além de ter ficado feliz pela coincidência de ter dois amigos de infância, de universos diferentes, namorando, dá um orgulho enorme ver o rumo que a vida dos dois tomou.

Destemidos, eles se jogaram no mundo com tudo! Se arriscaram em uma nova profissão sem saber os idiomas necessários, superaram medos e inseguranças, mas em compensação viveram coisas que jamais haviam sonhado. E de todas as recompensas, terem se encontrado com certeza foi a melhor delas. ❤

Para encerrar, vou deixar uma pequena amostra do trabalho do Fausto e da Jacque na equipe de animação do MSC Preziosa. E para quem tem interesse nessa profissão, recomendo a leitura dessa entrevista feita com a Jacque.

Por que escolhi ir para Cuba

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Ministerio del Interior na Plaza de la Revolución, em Havana

É difícil encontrar alguém que queira ir para Cuba que não tenha tido um pé na cozinha do Karl Marx. Caribe por Caribe, tem um monte de ilhas ali muito mais famosas pelas praias paradisíacas de mar azul. Ou pelo menos uma curiosidade saudável sobre como as coisas funcionam no país – acho difícil alguém de extrema direita querer ir para lá. Se não for minimamente simpatizante da revolução, pra quê ir? (Se for o seu caso, me conte!)

Comigo pelo menos foi assim. Eu nem lembro quando começou essa fissura por Cuba. Sei que na sétima série tinha um casal de professores que havia ido para lá – e isso era em 1999 – e eu achei incríveis as histórias que eles contavam – principalmente aquela coisa clássica de sentir que “voltou no tempo”. Talvez tenha sido neste momento que Cuba entrou para o meu radar.

No ano seguinte, fiz um seminário para a aula de História e meu grupo pegou os temas Revolução Russa e Chinesa, ou seja, fui me familiarizando com o socialismo. A professora era bem boa, estimulava discussões e provocava a galera nas aulas. E, claro, era pra lá de esquerda. Me identifiquei muito com os conceitos de igualdade social e comecei a me interessar por política. Virei vermelhinha.

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Da esq. para a dir.: estátuas de Camilo Cienfuegos, Fidel Castro e Che Guevara no Museu de la Revolución, em Havana

Sim, eu era dessas que defendia o PT, queria estar ao lado dos fracos e oprimidos e mudar o mundo. Usava camiseta do Che Guevara e lia Caros Amigos. Por um lado até que foi legal essa fase, eu era bem engajada. Ah, e na adolescência acho válido sonhar e ser idealista – já basta a vida adulta para te jogar doses diárias de baldes de água fria né?

Mas não foi só isso que me levou a ilha de Fidel. Tinha a música também, obviamente. Eu fazia aula de percussão, tocava de chocalho a atabaque, e o Mingo, meu professor, era mestre nos ritmos latinos. Fui aprendendo a base de vários estilos: salsa, rumba, chachacha, bolero e outros. Quanto mais ouvia, mais eu pirava.

Daí, naturalmente, veio a vontade de dançar salsa (ok, eu já estou morrendo de vergonha de contar tudo isso e quero desistir, mas vamos lá). Aprendi o básico e saía direto aqui em São Paulo para umas baladas latinas. A essa altura, não tinha como eu não ser obcecada por Cuba! Só precisava juntar dinheiro, ter férias e tava mais que decidido.

Músicos em cada esquina: um mito real de Cuba. Foto feita em Trinidad

Músicos em cada esquina: um mito real de Cuba. Foto feita em Trinidad

O mais louco é que voltei de saco cheio do Che Guevara e desse papo de revolução. Não que eu seja contra, o que passou, passou, ainda acho interessante toda a história. Mas lá você tem uma overdose sobre o tema e cansa falar e ouvir sobre isso. Sem contar que a maioria vive em condições precárias – apesar dos inegáveis benefícios na área de saúde e educação, ok.

E as paisagens, que antes eu nem dava bola, estão entre as coisas que mais me impressionaram. Não só a beleza das praias, mas também das construções históricas de Havana e Trinidad. Recomendo bem mais do que algumas ilhas caribenhas que de tão lotadas de resorts acabaram ficando quase sem identidade.

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Pôr do sol no Malecón, calçadão a beira do mar em Havana

Fotos: Débora Costa e Silva