Gente que viaja :: Marito de Bariloche

Marito no balcão, na visita que fiz a Bariloche em 2012

Marito no balcão, na visita que fiz a Bariloche em 2012

Bariloche tem todo um significado para mim. Foi onde vi a neve e esquiei pela primeira vez, aos nove anos. Tive a oportunidade de voltar mais duas vezes. Na segunda visita, em 2012, procurei lugares que talvez eu pudesse lembrar da primeira vez em que estive lá. Foi uma missão difícil, pois eu era criança e a memória não me ajudou, sem contar que a cidade mudou muito. Mas dentre os lugares que pudessem ser familiares, uma lojinha me chamou a atenção.

Não posso afirmar se já estive lá quando era pequena, mas é bem provável, já que ela é uma das mais antigas em funcionamento, desde 1924. O tipo de suvenir vendido ali me lembrou os que eu e minha mãe trouxemos para casa na época – entre eles, um ímã com pedaço de madeira esculpida em formato oval com pinturas de bonecos de neve, montanhas e outros símbolos da região.

Outra coisa que me chamou a atenção foi o simpático senhor atrás do balcão. Sorridente, ele não deixa de cumprimentar ninguém que entra na loja. Mesmo enquanto está atendendo um cliente, ele olha em direção à porta e fala: “buenas tardes, aqui se encuentra lo mejor precio de Bariloche!”

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Nessa última visita, agora em junho de 2015, quando entrei na loja tive a sensação de já conhecer o lugar. Mas foi quando ele apareceu no balcão e me cumprimentou é que as memórias voltaram.

Mario – “para as mulheres Marito” – tem 84 anos, sendo que 42 deles viveu sem o cigarro. “É por isso que ainda estou vivo e saudável”, disse todo orgulhoso. “Trabalho de 10 a 12 horas por dia sem problema algum”. Outro motivo de orgulho é sua vida amorosa: casou-se cinco vezes! É muita saúde mesmo! “Pero… Agora vivo de recuerdos”, lamentou rs.

Nasceu, cresceu e viveu a vida toda em Bariloche e quando perguntei se já havia viajado bastante, ele foi enfático: “nem a palo, no me gusta!’ Mas por quê? “Tenho pavor de avião! Eu gosto é daqui, Bariloche é linda!”.

Mas já foi melhor. Ele se lembra da época em que a cidade era vazia e menos desenvolvida. “Agora tem muita gente, dos anos 70 em diante começou a lotar e hoje em dia tem muito pobreza, gente passando fome. Não tem trabalho para tanta gente assim”, comenta.

A loja foi fundada pelo seu pai e ele deu sequência ao trabalho, mas antes de assumir o balcão, curtiu muito as belezas de Bariloche atuando como fotógrafo. Ele acompanhava grupos e registrava as viagens desses turistas. Foi assim que conheceu a região de cabo a rabo. “Eu mesmo revelava, fazia tudo – e conheci muitas mulheres também”, conta aos risos.

Pedi para que escolhesse seu lugar preferido de Bariloche. Ele saiu e voltou com um papel enrolado na mão. Era uma foto ampliada do cerro El Tronador. Disse que é a montanha mais bonita que conhece e me deu a foto de presente para que um dia eu pudesse visitar.

Gente que viaja :: Sergio de Mendoza

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Sergio em seu jardim. Foto: Débora Costa e Silva

“Se van los montañeros, se van se van”. Essa é a musiquinha que um guia chileno me ensinou a cantar para me distrair das curvas incessantes da estrada que leva ao topo do Valle Nevado, perto de Santiago. Recorro a ela, pois vou contar a história de um montañero que também andou por aquelas bandas do Chile. A vida toda.

Mendoza-Santiago, Santiago-Mendoza. Argentina-Chile, Chile-Argentina. Toda semana era esse vai e vem durante a juventude de Sergio Aguillar Gimenez. Hoje com 92 anos, ele continua com duas casas, uma em cada cidade, mas considera a da Argentina sua fiel morada.

Sua vida era viajar, atravessar a cordilheira e conectar essas duas cidades, fosse de carro, caminhão, micro-ônibus ou até veículos que transportavam 40 passageiros. No início, levava gado de um país ao outro. Depois vieram os trabalhadores que precisavam cruzar a fronteira. E assim seguiu pra lá e pra cá.

A vida na estrada lhe permitiu expandir os horizontes. Sempre foi muito criativo: certa vez pensou que ventiladores fariam sucesso em Mendoza, onde o tempo quente e seco castiga no verão. Então foi lá na capital chilena comprar uma leva para revender e fazer um dinheirinho extra.

Sergio separando as uvas para produzir vinhos

Sergio separando as uvas para produzir vinhos

Cada hora inventava uma coisa. Além de motorista e empreendedor nato, também ganhava a vida como marceneiro e tinha hobbys interessantes: produzia vinho e criava flores híbridas, através do cruzamento de espécies.

Quando conseguia férias ou uma folga entre um trabalho e outro, escapava para a estrada. Veio muito ao Brasil, inclusive, onde morou durante parte de sua infância e tinha parentes e amigos no interior de São Paulo. Foi em uma dessas incursões que conheceu sua prima Nicolina, minha avó paterna.

A prima

A primeira vez que se encontraram foi em 1955. “Ele apareceu de surpresa na casa da minha tia, na Vila Nova Conceição, em São Paulo, procurando por familiares”, lembra minha vó. Anos depois, na década de 80, o Sérgio bateu na porta de sua casa, já no bairro da Saúde, a bordo de um furgão acompanhado de sua esposa Nena, dez anos mais nova.

Sergio e Nina no furgão que tinham para viajar nos anos 80

Sergio e Nena no furgão que tinham para viajar nos anos 80

“Não tinha lugar na casa para eles ficarem, então entrei no carro e os guiei até Mogi das Cruzes, para a casa dos meus pais. O furgão parecia uma Kombi adaptada, não tinha nem onde eu sentar, fui entre os dois bancos da frente”, conta aos risos.

Quando o Sergio fez essa visita, eu já tinha nascido, mas ainda era bebê. Acho que ele chegou a me ver, mas eu só o conheci de fato em 2013, quando fui para Mendoza a trabalho e encontrei uma brecha para ir atrás de seu paradeiro. Minha vó não tinha notícias dele há anos e temia até que já tivesse morrido, por isso pediu que eu o procurasse.

A busca

Ela me deu uma foto do Sergio. No verso escreveu dois endereços que tinha em sua agenda e pediu para tentar achá-lo. Consegui uma tarde livre no último dia da viagem e o fotógrafo Tony Miyasaka, que estava no grupo dos jornalistas, topou me acompanhar na busca.

O portãozinho branco onde fui tocar a campainha na esperança de encontrar o Sergio e... achei!

O portãozinho branco onde fui tocar a campainha na esperança de encontrar o Sergio e… achei!

Fomos de táxi até Godoy Cruz, distrito próximo de Mendoza, e paramos na primeira rua que tinha anotado. Só que o número não existia, então resolvi tocar a campainha no mais próximo.

Ninguém atendeu. A rua, aliás, estava deserta e silenciosa. Pensei até: será que tem alguém vivo por aqui? Na segunda casa, apareceu um cachorro latindo alto e bravo (já fiquei tensa) e a pessoa que nos atendeu não conhecia nenhum Sergio. Na terceira tentativa, demorou para aparecer alguém, mas finalmente nos deram uma informação: ele mora ali, na casa de portão branco.

Já animada, toquei a campainha, com a foto dele em mãos. Depois de alguns minutos, um senhor apareceu na janelinha do portão: era o próprio! Fiquei emocionada! Falei que era neta da Nicolina, do Brasil, e ele abriu o portão para a gente.

A visita

Passamos a tarde inteira lá. Tentei várias vezes ligar para a minha vó no Brasil e não consegui, mas fizemos fotos, o Tony gravou alguns vídeos da nossa conversa, a Nena nos serviu um café da tarde e fomos embora quase de noite.

Foto: Tony Miyasaka

Altos papos na sala de estar. Foto: Tony Miyasaka

Durante esse tempo, ele me contou um pouco de cada viagem que fez. A conversa foi meio atrapalhada – um pouco pelo idioma, um pouco por sua surdez. Mas sua memória ainda estava tinindo e ele vibrava a cada lembrança.

Ele contou que além de ter rodado a América Latina toda e ter visitado muitos lugares no Brasil, foi a Espanha três vezes – uma delas ficou por três meses e também saiu em busca de seus parentes. “O Sergio sempre foi muito família e viajava muitas vezes em função disso, de ir atrás de suas origens”, conta minha avó. Mas foi quando ele me mostrou uma foto dele esquiando que me encantei de vez.

Dois anos depois desse encontro, eu já me esqueci de muitos detalhes da visita, então liguei pro Tony, que me recordou sobre a história do esqui. Pelo o que ele lembra, havia época em que não havia escola de esqui na região de Mendoza, nem equipamentos, e um dos sonhos do Sergio era esquiar. Ele fez que fez que convenceu uns caras do Exército a emprestarem seus esquis para poder brincar um pouco – e guardou essa foto aqui.

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Sergio esquiando. Foto: Arquivo pessoal

A queda

Uma hora paramos a conversa para conhecer seu jardim. Suas flores híbridas florescem por ali, logo ao lado de sua oficina de produção de vinho. Ele inclusive me deu uma garrafa para que eu levasse para a minha vó.

Voltando para a casa, resolvemos fazer uma foto com eles. Só que a Nena não queria aparecer de jeito nenhum. Depois de muito insistir, ela topou e posamos. E aí aconteceu uma das situações mais tragicômicas que já vivi. Comecei a sentir uma resistência, parecia que ela estava tentando se desvencilhar do meu abraço. Me puxava e eu puxava de volta, e depois de umas três vezes fazendo isso, eu percebi que não era ela, mas sim o Sergio que estava desequilibrado e caindo!

A foto pré-queda. Por Tony Miyasaka

A foto pré-queda. Por Tony Miyasaka

Tentei segurá-lo ao máximo, mas ele é muito pesado e a queda foi inevitável. Como foi caindo em câmera lenta, o impacto não foi tão grande, mas pela sua idade esse pequeno tombo já poderia ter causado um estrago. Acostumada com quedas ridículas de amigos da minha idade, confesso: a vontade na hora era rir, pois foi uma trapalhada e, quem diria, justo no momento da foto.

Mas logo percebi a gravidade da situação e fiquei super preocupada. Diz ele que não se machucou, mas vai saber, às vezes mesmo sem sentir a pessoa pode ter fraturado alguma parte do corpo e só descobrir depois. Bom, ele sobreviveu – e estava ótimo quando minha vó finalmente o reencontrou.

O reencontro

Minha vó e seu primo Sergio, em sua casa em Godoy Cruz, em Mendoza

Minha vó e seu primo Sergio, em sua casa em Godoy Cruz, em Mendoza

Quando voltei de viagem, mostrei a minha vó todas as fotos e vídeos. Ela se emocionou muito e me agradeceu. No fim, eu é que tenho que agradecer por ter me dado a chance de viver essa história e ter conhecido uma pessoa tão interessante.

O mais legal de tudo é que, um ano depois, minha vó embarcou para a Argentina e saiu do país pela primeira vez. Sim, ela foi para Mendoza reencontrar o Sergio e a Nena junto com seu outro primo Roni e sua esposa Jandira. Disse que foi emocionante e ficou feliz de ver que ele está melhor de saúde e continua falante e lúcido.

A história do Sergio é inspiradora. Em tempos em que o dinheiro era suado e viajar era tão mais difícil do que hoje em dia, ele fazia de tudo para cair na estrada e seguir em busca de suas origens, de sua família e visitar os amigos. E graças ao pedido da minha vó, pude viver um pouco disso também. Com uma foto na mão, saí em busca de um primo distante e encontrei ainda mais inspiração para continuar viajando.

Álbum de fotos :: El Calafate

O friozinho que chegou em São Paulo me inspirou a resgatar as fotos que fiz em El Calafate, na Argentina, em fevereiro de 2014. A cidade é famosa por abrigar o Perito Moreno, uma geleira azul impressionante que tem o tamanho aproximado da cidade de Buenos Aires. Mas esta é a cereja do bolo – recomendo inclusive deixar pro final. O destino não se resume só a ela e tem muitas coisas bacanas pra fazer e lindas de ver.

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Fizemos um passeio em um carro 4×4 pelo Cerro Frias no pôr do sol. Não peguei tempo bom, mas ainda assim me impressionei de ver lá do topo da montanha o Lago Argentino. Ele é azul por ser abastecido pela água do degelo da neve e tem 1.500 m².

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Se antes o impacto foi causado pela cor do Lago, no passeio de barco os protagonistas são essas geleiras azuis, de formações bizarras e belíssimas.

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O passeio de barco pelo Lago Argentino é sensacional, você passa o dia navegando por blocos de gelo e montanhas assim. Na rota, tem também outros glaciares importantes, como o Upsala (que não fiz fotos boas por conta do céu branco + branco da neve)

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Um clássico da Patagônia: no meio ou no fim do passeio, a turma serve whisky com gelo glacial, ou seja, que veio das geleiras.

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Caminhada até o Perito Moreno, onde faríamos trekking no gelo. Essa hora o sol deu um oi rápido, mas logo foi embora.

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A turma fazendo trekking no Perito Moreno – usamos um suporte no tênis com garras para fixar os pés no gelo.

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A geleira tem 60 metros de altura – quase o tamanho de um prédio de 20 andares!

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Depois de conhecer o Perito Moreno de pertinho, fizemos outro passeio e andamos por essas passarelas para ver a geleira por outro ângulo.

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Fotos: Débora Costa e Silva