São Paulo :: Paulista Aberta

Avenida Paulista aos domingos recebe ciclistas, artistas e cada vez mais moradores que curtem o dia ao ar livre. Foto: Débora Costa e Silva

Avenida Paulista aos domingos recebe ciclistas, artistas e cada vez mais moradores que curtem o dia ao ar livre. Foto: Débora Costa e Silva

Desde que me entendo por gente, a avenida Paulista já era um polo cultural fascinante. Nos anos 2000, durante a adolescência, ia a shows gratuitos na hora do almoço na Fiesp, ver filmes nos cinemas Belas Artes e Unibanco (hoje Itaú), visitava o MASP, o Itaú Cultural e a Casa das Rosas. Mas não era um ponto ou outro que me atraía especialmente, era o seu movimento. A Paulista sempre teve vida própria.

Eis que em junho de 2015, a prefeitura inaugurou sua ciclovia e no mesmo dia abriu a avenida para os pedestres aos domingos (anota aí: é das 10h às 18h) e transformou ainda mais a experiência de quem circula por lá. Se antes já era vibrante, imagine agora? Todo domingo a via recebe gente de todos os estilos, idades e classes sociais para fazerem inúmeras atividades, na melhor tradução do termo “diversidade”.

O pessoal vai caminhar, correr, pedalar, patinar, tirar fotos, visitar um museu, a feira de antiguidades do MASP, participar de aulas de dança, de oficinas de artesanato, tomar um café, almoçar, levar o cachorro pra passear, assistir a um (ou vários) show ou simplesmente ficar zanzando e acompanhar o fluxo.

Feirinha de artesanato é um plus para quem visita a de antiguidades do Masp. Foto: Débora Costa e Silva

Feirinha de artesanato é um plus para quem visita a de antiguidades do Masp. Foto: Débora Costa e Silva

Tenho ido com frequência e virou meu ritual de fim de semana desde novembro, muito por conta da bike também – aliás, não sei dizer se a paixão por pedalar me levou à Paulista ou se foi a Paulista que acabou me incentivando a pedalar, mas ok, isso é outra história rs. Foi bonito observar ao longo dos meses a rua ser tomada e encher mais e mais a cada semana, ganhando novos adeptos e atrações. Sempre me surpreendo com algo novo e chego até a ficar aflita de não dar conta de ver tudo.

Para turistas é um prato cheio, porque em um só passeio já têm uma amostra da variedade de culturas, tribos e loucuras de São Paulo. Para quem é paulistano, vive de saco cheio do trânsito, metrô lotado, falta de segurança, stress do trabalho, preços que não param de subir, dê uma chance para curtir a cidade como turista também, vai!

É uma cidade difícil, que muitas vezes não te ganha de primeira – ok, às vezes nem de segunda – mas eu duvido que alguém não encontre um lugarzinho no meio de toda essa diversidade da Paulista pra se aconchegar e curtir o dia. E é aí que mora a graça do negócio: é uma contravenção e tanto essa avenida, tão comercial, tão imponente, tão símbolo de todo o caos, estar agora livre, leve e solta quase como um parque, apenas com a função de ser um espaço público de convivência democrática.

Ciclovia, ciclofaixa e cia

Ciclovia + ciclofaixa na avenida Paulista. Foto: Débora Costa e Silva

Ciclovia + ciclofaixa na avenida Paulista. Foto: Débora Costa e Silva

Além da ciclovia que já existe na avenida e é utilizada diariamente, aos domingos e feriados os ciclistas ganham mais espaço com a CicloFaixa de Lazer, patrocinada pelo Bradesco Seguros e realizada em diversas regiões da cidade. Ué, mas se já tem ciclovia, pra quê mais uma faixa ali? Bom, é só dar um pulinho lá para perceber que ambas ficam bastante carregadas aos domingos, até porque não é só bike que tem por ali, tem gente de patins, skate, hovertrax, patinete e por aí vai. Se quer praticar mesmo, a dica é ir cedo, pelo menos antes das 11h, porque depois começa a ficar difícil de circular e o pessoal começa a tomar conta também da ciclofaixa para assistir shows. Dá para andar, mas com muito cuidado, atenção e algumas paradas para desviar da galera.

SOS Bike na Praça do Ciclista, com serviços gratuitos. Foto: Movimento Conviva

SOS Bike na Praça do Ciclista, com serviços gratuitos. Foto: Movimento Conviva

Outro benefício incrível é a assistência gratuita aos ciclistas dada também pelo Bradesco: ao longo da extensão da ciclofaixa (já desde a avenida Jabaquara, com início na estação São Judas, passando pela Vila Mariana), há profissionais circulando com ferramentas para auxiliar o público com algum problema na bike (pneu murcho ou furado, ajustes no selim, reforço no breque, entre outros), além de uma estação SOS Bike na Praça dos Ciclistas, com ainda mais possibilidades de reparos mecânicos. Tudo de graça, basta preencher uma ficha na hora.

Shows

Banda Picanha de Chernobil toca covers e músicas próprias de rock e blues. Foto: Débora Costa e Silva

Banda Picanha de Chernobil toca covers e músicas próprias de rock e blues. Foto: Débora Costa e Silva

Entre na Paulista, tire os fones de ouvido e aproveite! Dá para curtir vários shows em um mesmo domingo e tem muita banda boa fazendo um som por ali. A minha favorita é a The Leprechaun, que toca geralmente entre as estações Trianon e Brigadeiro. A formação inclui banjo, violão, baixo, percussão, violino e conta com os vocais da Fabiana Santos. Eles fazem uma mistura de bluegrass e folk e intercalam músicas próprias e covers bem originais de músicas como “Redemption Song” e “Do You Remember Rock N Roll Radio”.

Pra fãs de rock e blues, a dica é a banda Picanha de Chernobill, com formação clássica de guitarra, baixo e bateria e repertório de altíssima. Pra relaxar e diminuir o ritmo, dê uma paradinha para ouvir a Carolina Zingler na Esquina do Jazz, com um som acústico de violão e cajon, às vezes acompanhado de outros instrumentos, o som é uma delícia. Com sopros, banjo e baixo acústico, a Cuca Monga é outra que eu adoro. O grupo é bastante divertido e toca músicas tradicionais brasileiras rearranjadas para o jazz.

Tem muitas outras bandas, de diferentes estilos, e sempre aparece um ou outro artista novo por lá, sem deixar de mencionar umas figuras pitorescas , como o cover do Elvis Presley, do Roberto Carlos e do Michael Jackson, que estão sempre por lá.

Feirinhas

Se hoje a Paulista é esse fervo todo aos domingos, isso se deve muito a feirinha de antiguidades que rola no vão do MASP há mais de 25 anos. É um dos eventos mais tradicionais da região e da própria cidade, e que com certeza incentivou o fluxo de pessoas que vão para lá com o intuito de passear e ponto. Como toda boa feira, essa tem uma variedade de produtos como câmeras fotográficas, miniaturas, relógios, artigos náuticos, objetos de porcelana, broches, livros e até obras de arte.

Feirinha do vão do Masp acontece já há mais de 25 anos aos domingos. Foto: Débora Costa e Silva

Feirinha do vão do MASP acontece já há mais de 25 anos aos domingos. Foto: Débora Costa e Silva

Do outro lado da avenida, em frente ao Parque Trianon, há uma espécie de sessão extra, com barraquinhas informais que vendem artesanato, bijuterias e roupas para quem já curte um estilo ligeiramente mais hippie. Pra fechar o circuito, dentro do shopping Center 3 há todo domingo uma outra feira, a Como Assim?!, essa mais alternativa e moderna, com vestidos, bottons, pôsteres e artigos de decoração.

Comidinhas

Feirinha gastronômica na Praça Oswaldo Cruz. Foto: Débora Costa e Silva

Feirinha gastronômica na Praça Oswaldo Cruz. Foto: Débora Costa e Silva

Mesmo antes de ser aberta, a Paulista já era um destino gastronômico aos domingos por causa das já existentes feirinhas de artesanato e antiguidades. Comer yakisoba por ali era um clássico, mas agora as opções se proliferaram, ainda mais com a presença massiva de foodtrucks. Há dois pontos principais: na praça Oswaldo Cruz, no comecinho da Paulista, e no calçadão em frente ao prédio da Fiesp.

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Além dos food trucks, tem ambulantes em bikes retrôs vendendo docinhos. Foto: Débora Costa e Silva

Em ambos há banquinhos para sentar e um pouco de tudo para comer: pastel, hambúrguer, massa, churros, sushi, taco e por aí vai. Circulando pela avenida também é comum encontrar um pessoal vendendo doces, café e outras delícias em bikes retrôs ou em barraquinhas estilosas.

Dança e atividades

Grupo de dança afro atrai sempre uma plateia enorme na Paulista. Foto: Débora Costa e Silva

Grupo de dança afro atrai sempre uma plateia enorme na Paulista. Foto: Débora Costa e Silva

Não importa o horário que você passar por lá, com certeza vai encontrar pelo menos um grupo fazendo alguma atividade mais inusitada. Tem o pessoal do bambolê, do samba rock, da dança afro (com direito a música ao vivo também, uns batuques incríveis) e até de lamba aeróbica (ainda é esse nome que dá pra quem dança axé e faz ginástica, né?).

Para as crianças também tem bastante opção, com grupos de contação de histórias, fantoches e oficinas diversas. O Parque Mário Covas e seus arredores concentram muitas das atividades bacanas para os pequenos. E claro, vira e mexe você encontra cenas engraçadas, mágicos, estátuas vivas, artistas e malucos de todos os tipos, como essa interação que flagrei uma vez:

Sei que o texto saiu super apaixonado, mas é difícil não se envolver e não celebrar essa conquista da cidade, que está mais aberta e mais humana. Claro que tem vezes que chego a me irritar com a muvuca toda, com o Elvis cover atrapalhando outro show ao lado, com pessoas que não respeitam a ciclovia, mas ainda assim, acho tudo muito válido e até essa bagunça pode ser bonita. A rua tem que ter espaço para todos!

Pra fechar, deixo aqui um documentário curtinho sobre a abertura da Paulista, com depoimentos de arquitetos, da prefeitura e do público que frequenta a rua. E aproveitem o domingo ❤

Londres :: Primeiras impressões

Londres do alto da London Eye. Foto: Débora Costa e Silva

Londres do alto da London Eye. Foto: Débora Costa e Silva

Há lugares que te conquistam platonicamente, à distância, ao ver uma foto, ouvir uma música, assistir um filme ou ler alguma história. E há lugares que não despertam muito interesse à primeira vista, até que alguma coisa acontece e pá, dá um estalo e te faz ver tudo com outros olhos.

Minha história com Londres foi mais ou menos assim e o “clique” aconteceu de um jeito que jamais iria imaginar. Não foi ao ver o Big Ben, nem os ônibus vermelhos ou o rio Tâmisa: foi quando começou a garoar. Eu jamais imaginei que ia gostar e até chegar a me emocionar com isso, sempre odiei tomar chuva, mas ali, logo na minha primeira noite, sentir aquelas gotinhas finas e ver a cidade iluminada em meio aquela delicada garoa foi especial. Me senti dentro de uma cena clássica.

O clássico dos clássicos: Mind the gap! - Foto: Débora Costa e Silva

O clássico dos clássicos: Mind the gap! – Foto: Débora Costa e Silva

Até conhecer a cidade eu não tinha muito vontade de visitá-la. Penso isso hoje e fico até com vergonha – como pude não me interessar antes? Mas é que achava que os ingleses deviam ser muito arrogantes, não via nenhum glamour na família real e além de tudo, achava que devia ser um lugar frio e cinzento, com um clima meio deprê.

Foi graças à minha amiga Thaíla que fui parar lá. Ia passar as férias na Espanha e acabei incluindo Londres no roteiro para poder visitá-la. Outro empurrão foi a leitura que fazia na época da biografia dos Beatles, o que me fez começar a achar a ideia de ir para a terra deles interessante – apesar de que fora a Abbey Road, não tem muitas outras coisas que remetam ao grupo na cidade.

Vista da estação West Ham, zona leste de Londres. Foto: Débora Costa e Silva

Vista da estação West Ham, zona leste de Londres. Foto: Débora Costa e Silva

Da cena da garoa até o final dos meus 6 dias pela cidade o encanto só cresceu. Visitei as atrações clássicas? Opa, claro: fui ao Tate Modern, vi o Big Ben, passeei na London Eye, fui até a Catedral St. Paul ocupada por manifestantes do Occupy London, tomei café da manhã no Borough Market, conheci a Abbey Road (fiz a foto e vim embora frustrada – “era só isso?”), passei pela Trafagal Square e visitei a National Portrait Gallery.

Folhas típicas do outono tomavam conta da cidade, em outubro de 2011. Foto: Débora Costa e Silva

Folhas típicas do outono tomavam conta da cidade, em outubro de 2011. Foto: Débora Costa e Silva

Mas as coisas que mais me envolveram não estavam nos guias de viagem – como é de se esperar. A atmosfera dos pubs, que recebe desde os bêbados mais loucos até grupos de senhorinhas que se reúnem à tarde; a diversidade de pessoas de todos os cantos do mundo na feirinha da Portobello Road, em Notting Hill – bairro que inspirou o filme com a Julia Roberts e o Hugh Grant, que eu inclusive assisti no avião na ida; a noite que fiquei vagando sem rumo sozinha à beira do rio Tâmisa ouvindo uma cantora que tocava violão na rua; e as belíssimas árvores com folhas alaranjadas, típicas do outono, que deixavam a cidade tão linda – e me emocionaram tal qual a garoa, talvez por ter sido a primeira vez que vivi um outono com a cara da estação.

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Um pedacinho da feirinha da Portobello Road. Foto: Débora Costa e Silva

Uma das surpresas foi o Halloween – não tinha me ligado que estaria lá na data e nem achava que pudesse ser tãaaao legal. Não só pude ver casas e lojas enfeitadas como também me diverti no próprio dia 31 de outubro vendo to-do mun-do (crianças, adultos, idosos) fantasiado no metrô indo ou voltando de alguma festa. Pena não ter me preparado e arrumado uma fantasia, mas ainda bem que isso não me impediu de curtir uma das melhores festas que já fui, na casa de amigos da Thaíla, com gente da Índia, Canadá, África do Sul dançando até altas horas.

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Restaurante em Londres decorados pro Halloween. Foto: Débora Costa e Silva

Acho que não poderia ter escolhido melhor o primeiro lugar da Europa para conhecer. Qualquer destino teria causado um choque, mas o impacto de Londres é ainda maior. Em meio a tantas culturas e em um lugar com símbolos e identidade tão fortes e presentes no nosso imaginário, dá aquela sensação de não só estar viajando, mas de estar no centro do mundo. Eu que amo cidade grande quase não me perdoo por nunca ter tido vontade de ir antes, mas vibro toda vez que penso na sorte que tive ao ir para lá meio sem querer.

A viagem foi tão marcante que acabei contagiando minha irmã Luana com a ideia de ir pra lá. Três anos depois, voltei à terra da rainha na companhia dela durante sua viagem de comemoração de seus 15 anos. Nos próximos posts, contarei um pouco mais sobre os passeios mais bacanas que fiz por lá, da primeira e da segunda vez 😉