Gente que viaja :: Marito de Bariloche

Marito no balcão, na visita que fiz a Bariloche em 2012

Marito no balcão, na visita que fiz a Bariloche em 2012

Bariloche tem todo um significado para mim. Foi onde vi a neve e esquiei pela primeira vez, aos nove anos. Tive a oportunidade de voltar mais duas vezes. Na segunda visita, em 2012, procurei lugares que talvez eu pudesse lembrar da primeira vez em que estive lá. Foi uma missão difícil, pois eu era criança e a memória não me ajudou, sem contar que a cidade mudou muito. Mas dentre os lugares que pudessem ser familiares, uma lojinha me chamou a atenção.

Não posso afirmar se já estive lá quando era pequena, mas é bem provável, já que ela é uma das mais antigas em funcionamento, desde 1924. O tipo de suvenir vendido ali me lembrou os que eu e minha mãe trouxemos para casa na época – entre eles, um ímã com pedaço de madeira esculpida em formato oval com pinturas de bonecos de neve, montanhas e outros símbolos da região.

Outra coisa que me chamou a atenção foi o simpático senhor atrás do balcão. Sorridente, ele não deixa de cumprimentar ninguém que entra na loja. Mesmo enquanto está atendendo um cliente, ele olha em direção à porta e fala: “buenas tardes, aqui se encuentra lo mejor precio de Bariloche!”

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Nessa última visita, agora em junho de 2015, quando entrei na loja tive a sensação de já conhecer o lugar. Mas foi quando ele apareceu no balcão e me cumprimentou é que as memórias voltaram.

Mario – “para as mulheres Marito” – tem 84 anos, sendo que 42 deles viveu sem o cigarro. “É por isso que ainda estou vivo e saudável”, disse todo orgulhoso. “Trabalho de 10 a 12 horas por dia sem problema algum”. Outro motivo de orgulho é sua vida amorosa: casou-se cinco vezes! É muita saúde mesmo! “Pero… Agora vivo de recuerdos”, lamentou rs.

Nasceu, cresceu e viveu a vida toda em Bariloche e quando perguntei se já havia viajado bastante, ele foi enfático: “nem a palo, no me gusta!’ Mas por quê? “Tenho pavor de avião! Eu gosto é daqui, Bariloche é linda!”.

Mas já foi melhor. Ele se lembra da época em que a cidade era vazia e menos desenvolvida. “Agora tem muita gente, dos anos 70 em diante começou a lotar e hoje em dia tem muito pobreza, gente passando fome. Não tem trabalho para tanta gente assim”, comenta.

A loja foi fundada pelo seu pai e ele deu sequência ao trabalho, mas antes de assumir o balcão, curtiu muito as belezas de Bariloche atuando como fotógrafo. Ele acompanhava grupos e registrava as viagens desses turistas. Foi assim que conheceu a região de cabo a rabo. “Eu mesmo revelava, fazia tudo – e conheci muitas mulheres também”, conta aos risos.

Pedi para que escolhesse seu lugar preferido de Bariloche. Ele saiu e voltou com um papel enrolado na mão. Era uma foto ampliada do cerro El Tronador. Disse que é a montanha mais bonita que conhece e me deu a foto de presente para que um dia eu pudesse visitar.

Links na bagagem :: Leituras da semana #9

Essa semana o assunto tá bem variado por aqui. Eu diria até que está numa fase hard news, com assuntos meio incomuns de aparecerem nos noticiários de turismo, tipo Haiti, o museu de armas da Rússia (!?!) e um iraniano dando uma daquelas volta ao mundo muito loucas.

Mas tem também duas dicas mais relacionadas à tecnologia, como o mapa mostra livros para cada destino e o infográfico que revela os lugares mais buscados em banco de imagens. Divirta-se!

O que eu aprendi com o Haiti – 360 Meridianos

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O Gustavo Azeredo conta neste texto suas impressões do país quando esteve por lá turistando. Isso mesmo, ele foi para o Haiti a passeio. Acabou se hospedando em um lugar que era “meio Ong meio hostel” e logo no primeiro dia já presenciou uma manifestação com pedras e pneus queimados. Mas também visitou museu, montanhas, cachoeira e praia com mar caribenho. Inusitado é pouco, vale a pena ler o relato!

Erros que a gente pensa que é muito esperto para cometer em viagens – Go to Gate

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O blog da Bruna Caricati é demais e eu adoro quando ela faz essas listas com dicas mega práticas para viajantes. É o caso desta daqui, que reúne umas coisas que às vezes esquecemos, e outras que nem sabemos. Eu mesma uso super pouco as vantagens do meu cartão de crédito por pura preguiça falta de costume. Outro toque legal é a de verificar bem o carro que vai alugar e fotografar para não pagar por danos que você não causou.

Infográfico traz imagens dos países mais procurados do mundo – Follow the Collors

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Genial este infográfico do banco de imagens Shutterstock, que mostra quais países têm sido mais procurados no sistema. O resultado? Eu jamais acertaria: Madagascar. Outra informação interessante é a palavra-chave mais buscada. A que teve mais crescimento foi “aventura”. É legal para ter uma ideia das tendências de viagens 😉

Putin abre parque temático com armas ao invés de brinquedos – Marcelo Rubens Paiva

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Daquelas coisas surreais que a gente encontra por aí: a Rússia está inaugurando a Disneylândia Militar. O presidente Vladimir Putin criou este parque para celebrar os grandes feitos da URSS, mostrar armas antes secretas e, pior, deixar crianças brincarem com  lançadores de granadas, tanques e afins. No final, a lojinha vende camisetas com o rosto de Putin e banners com dizeres patrióticos da Segunda Guerra. Tem gosto para tudo…

Iraniano para volta ao mundo em barco-bicicleta por multa da receita – Folha de S. Paulo

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Imagine topar no meio do trânsito com essa máquina? Minha amiga Andrezza teve a honra de encontrar esse barco-bicicleta estacionado na garagem do seu prédio e divulgou essa notícia bizarra. Apesar de o cara ter levado uma multa (e ser essa a notícia), eu já fiquei chocada com a aventura inusitada que esse cara se propôs.

Ebrahim Hemmatnia começou sua viagem em Dacar, no Senegal, com destino a Fortaleza. Depois de atravessar o Atlântico, ele veio pedalando até São Paulo. Após resolver as burocracias causadas pela Receita, ele pretende seguir até a Argentina, depois passar pelo Chile e pelo Peru e de lá atravessar o Pacífico até a Austrália! 😮

Google Maps dos livros mostra onde cada história se passa – Catraca Livre

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Minha amiga Maíra que postou esse projeto sensacional, o Lovereading. Uma organização britânica marcou em um mapa as localizações de diversas obras literárias – já são mais de 200! Por enquanto ainda não inclui o Brasil, mas a boa notícia é que qualquer um pode adicionar itens ao mapa. A ideia resultou em uma ferramenta ótima que pode te ajudar a escolher o livro de acordo com o destino ❤

I was going through followers other day – Oh I see Red!

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Pra fechar, um texto que nada tem a ver com viagem, mas com blogs. A artista Red Hong Yi, que faz retratos incríveis de tudo quanto é tipo de material, compartilhou esse manifesto que diz basicamente: não desista do seu blog. O autor conta que vários sites que acompanha dão intervalos longos e às vezes nunca mais voltam a ser atualizados.

Ele pede que insistam em seus relatos, mesmo tendo poucos leitores, pois o objetivo não pode ser só audiência. A ideia é ver o seu blog como uma contribuição sua para o mundo, que cada um tem sua voz e sua visão e nenhuma merece ser descartada. Ler isso me deu ainda mais gás para manter o Papetes atualizado, aconteça o que acontecer 🙂

Desabafo :: Reserva #fail e mau atendimento em pousada

tumblr_inline_norip93Ury1qc22fu_500 No mundo cor-de-rosa do turismo, tudo é divino, maravilhoso: praias paradisíacas, comidas típicas, museus a céu aberto, ahhh viajar é tudo de bom né? É, quase sempre, quando não damos o azar de ter imprevistos, passar perrengues e ser mal atendidos, tá tudo certo. Coisas assim podem estragar uma viagem que tinha tudo para ser incrível e acaba virando inesquecível só que pelos motivos errados. Foi o que (quase) aconteceu neste último fim de semana em que estive em Ubatuba. A organização da corrida que eu e meu namorado fomos fotografar havia reservado duas noites para a gente na Pousada Praia de Itamambuca. Na sexta-feira, antes de sair de São Paulo, ligamos para confirmar e pegar o endereço certinho, mas o dono do estabelecimento alegou que não sabia de reserva nenhuma. Disse que o responsável pelas parcerias com as hospedagens sempre avisava as coisas em cima da hora, que estava cansado disso e não iria nos hospedar naquela noite. Estranhamos e achamos melhor viajar só no dia seguinte. tumblr_m9c5h19rVH1r835q9 No sábado, já no local do evento, o pessoal da organização confirmou que a reserva havia sido feita, sim, para os dois dias nesta pousada em questão. Que estranho. Bom, ok, perdemos uma manhã de praia, mas tá bom. Após o trabalho, chegamos na pousada à noite. Na recepção vazia, havia uma placa pedindo para tocar um sino caso não houvesse ninguém. Tocamos e logo em seguida apareceu o dono. “Vocês que ligaram ontem?”, perguntou. “Sim, sou o fotógrafo da corrida de amanhã”, disse meu namorado. E então ele esbravejou e começou a falar absurdos. Disse que já estava indo dormir, que não estava sabendo de nenhuma reserva em nosso nome. Dissemos então o nome do responsável pela reserva e ele disse que esse cara vira e mexe fazia isso, de não avisar as coisas com antecedência, mas que não ia ligar para ele para confirmar nada, e nem queria que ligássemos, pois ele NÃO ia nos hospedar. tumblr_inline_npqyqcrsUu1qc22fu_500 Disse inclusive que tinha até quarto vago, mas que ele não ia abrir o escritório e mexer no controle das hospedagens aquela hora. Disse que trabalhou o dia inteiro, que dirigiu sei lá quantos quilômetros e que estava cansado. Nos acusou de estar aplicando um golpe de tentar se hospedar de graça, mas mal nos deu chance de explicar nossa história. Ele não queria saber. Inclusive disse: “eu não sei quem são vocês!” E tudo isso gritando! Eu disse que nós estávamos numa situação complicada, pois também estávamos ali a trabalho, também nos foi prometido aquela hospedagem e agora não tínhamos onde ficar. Então pedimos uma indicação a ele, e ele se NEGOU a indicar outra pousada. “A rua tá cheia de pousada, procurem! Eu não vou indicar lugar nenhum!” tumblr_mkqimsIvr61ruw1vso1_500 Disse também que ali não era uma pousada comum, era uma hospedagem para amigos e pessoas de confiança. Ora, não era então o caso de tirar a placa “Pousada”? Pois em QUALQUER hospedagem que se vá pedir um lugar para dormir, as pessoas são tratadas de outro jeito. Ele poderia não saber da reserva por uma falha de comunicação entre a organização do evento? Poderia. Mas se ele fosse minimamente educado, ele nos daria a chance de ligar para a pessoa responsável e pedir uma explicação. Ele não nos permitiu fazer isso. Ele poderia dizer que não aceitaria nos hospedar com cortesia? Claro, e poderia ter nos dito o valor da diária e nós pagaríamos. Ele poderia não querer nos hospedar ou até não ter quartos? Sim, e nós entenderíamos, se ele não tivesse sido grosso e pudesse até nos indicar um outro lugar. giphy Além de ter tratado mal pessoas que, como ele bem falou, “não sabe quem são”, ele ainda perdeu clientes e uma bela chance de ganhar mais recomendações. Ele realmente não sabe quem somos, se somos influentes, se somos sacanas, se somos pessoas do bem…. Enfim, ele descontou toda a raiva dele em mim e no meu namorado! Nós não temos culpa de que um dia, talvez, ele tenha sido sacaneado. Uma pena, a sorte é que estávamos de bom humor, não criamos confusão, saímos de lá e com a ajuda do garçom do restaurante Padang, conseguimos nos hospedar na Pousada Marthi, onde tivemos uma experiência ótima e uma lição de vida: não deixe que o mau humor dos outros e as más atitudes estraguem sua viagem. Nesse mundo há de tudo: pessoas que te expulsam de um lugar à noite, e pessoas que te acolhem. Alguém aí já ficou sem ter onde dormir em uma viagem por ter tido um problema com a reserva, por falha de comunicação ou qualquer outra situação bizarra como esta? Conte aí nos comentários ou me escreva! Vou selecionar as melhores (e/ou piores) e publicar por aqui. Turistas unidos jamais serão vencidos 😛

Como

Como eu me sinto quando sou mal atendida e perco minha hospedagem

Bate-volta :: Paraty (RJ)

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O plano era ir para Ubatuba fotografar uma corrida com meu namorado. Só que com ele é assim: uma vez na estrada, sempre na estrada. Parece que tem um ímã que vai puxando a gente para outros caminhos.

Uma hora ele falou: estamos bem pertinho de Paraty, vamos lá comer alguma coisa e voltar? E assim fomos, com todas as malas e equipamentos no carro, aproveitar o fim do dia por lá.

Admito, com vergonha, que nunca tinha ido. E até então tinha uma “coisa” por Paraty, era tipo um sonho que nunca dava certo de realizar. Flips e Paratys em Foco passaram, idas e idas até o Rio também e nada. Como diz minha mãe, “de pensar morreu um burro”, e nada fiz. A primeira vez teve que ser assim, de supetão mesmo – e foi muito mais legal!

Achei tudo tão bonito quanto imaginava e via nas fotos mesmo. Mas só estando lá para saber como o charmoso chão de pedras dificulta a caminhada, te obrigando a entrar no ritmo da cidade e andar devagar.

As poças d’água refletindo o casario eram outra expectativa. Tava louca para brincar de fotografar isso. E mais uma surpresa boa: a maré estava alta e a rua mais próxima ao mar virou um rio. Vejam aí as fotos (nem tudo saiu lindo como eu vi, as imagens foram feitas só com o celular).

Carrinhos que vendem bolos são super tradicionais, tem um em cada esquina do centro histórico

Pátio da Casa da Cultura de Paraty, onde tem café, auditório e várias exposições

Fusquinha dos noivos que casavam na igreja ❤

O legal de ir à noite é que o centro histórico e seus casarões ficam todos iluminados

No início do passeio, toda e qualquer poça pareciam já dar um super efeito

Mas aí encontramos essa igreja e a rua parecia um rio!

Mas aí encontramos essa igreja e a rua parecia um rio!

E a rua ao lado estava ainda mais impressionante, por conta das cores das casas e lojas

No fim andamos muito, conhecemos a Casa da Cultura da cidade que é linda, tomamos um mate e fomos embora. Foi como ter dado uma espiada rapidinho, só para sentir o gostinho, e pronto. Bate-volta tem dessas, parece que entramos em uma cápsula do tempo e vem até uma sensação de que estávamos sonhando.

Links na bagagem :: Leituras da semana #8

Após duas semanas insanas de trabalho, volto com mais links e leituras relacionadas ao universo de viagens. Foi até bom dar uma pausa para acumular bastante coisa legal!

Prevejo até que esta seção dê mais pausas pela frente. Afinal, links legais encontramos todos os dias, mas só sobre viagem às vezes fica difícil. Pra não forçar a barra, pretendo reunir só quando tiver coisa bacana meeeesmo. Melhor assim, né?

O azedo de Cuba – Volto pro almoço – Viagens pela boca

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Um dos blogs mais incríveis que conheci nos últimos tempos! Quem faz é a jornalista Priscila Dal Poggetto, ex-colega de Diário do Grande ABC. Me surpreendi, pois ela trabalha há um tempão com a editoria de carros, mas quem diria, é uma viajante/cozinheira/cronista de primeira! Ela conta histórias dos lugares e pessoas que conheceu em suas viagens traçando um paralelo com a culinária local.

E tem mais: no final, ainda coloca uma receita do prato ou bebida em questão – preparada por ela mesma. E como já era de se esperar, as histórias que mais me fisgaram foram as de Cuba, que estão fresquinhas no site. Além do azedo citado acima, tem o Salgado, o Picante, o Amargo e o Doce de Cuba.

Seja um turista na sua própria cidade – Indiretas do Bem

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Esse texto é curtinho, mas imprime uma ideia simples, porém muitas vezes complexa de colocar em prática, que é olhar seu próprio habitat com novos olhos – como os de um turista. Lembro que senti isso quando comecei a fotografar com o celular. Vivia em busca de coisas fofas ou inusitadas no dia a dia, e sabe, é só abrir bem os olhos que dá pra achar algo interessante por aí e dar aquela renovada diária no astral.

Muito antes da internet, Guia 4 Rodas foi Bíblia de viajantes brasileiros – UOL Viagem

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Momento autopromoção do post: essa foi uma das matérias mais gostosas de fazer para o UOL. Primeiro pelo momento histórico, que é o fim dessa publicação importantíssima para qualquer um que já tenha viajado pelo Brasil de forma independente. Segundo pois tive a chance de conhecer mais sobre o próprio Guia, ao pesquisar sua trajetória.

E terceiro por ter entrevistado gente bacana e cheias de aventuras para contar, como o Artur Veríssimo e o Maurício Kubrusly. Se você se interessa pelo assunto, sugiro ainda outro link: 50 anos do Guia 4 Rodas, onde tem MUITO mais história!

A aflição do relaxamento – Chicken or Pasta

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Da série “filosofias de viagem”, esse texto é um belo desabafo que casa muito com o que penso sobre “obrigações de turistas”: uma chatice! O post fala dessa coisa que é voltar de uma viagem e ser questionado sobre os lugares que foi ou não e ser até julgado pelas pessoas por não ter aproveitado o suficiente ou não ter conhecido de verdade uma cidade. Até porque, isso é passeio e descanso ou uma maratona de quem vê mais atrações por minuto?

Amor em escalas – Papo de Homem

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Esse texto vem direto do túnel do tempo (ou, no caso, do Timehop). Foi publicado há dois anos, mas reencontrei e achei que valia o compartilhamento. A autora encontra semelhanças entre a forma com que lidamos atualmente com o amor e com nossas viagens: ambos são temporários e pequenos luxos. E lembra também que após uma separação, muitos acabam querendo, quase precisando, mudar de cidade ou cair na estrada.

Gente que viaja :: Fausto & Jacque

Nesse Dia dos Namorados, vou contar uma história de um casal que se conheceu viajando e desde então não se separou mais. Há dois anos eles exploram o mundo a bordo de um navio, animando os passageiros, trabalhando e vivendo juntos.

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Fausto

Sabe aquelas pessoas que têm o poder de atrair a atenção de todo mundo em uma roda de amigos? O Fausto é assim: conta histórias que parecem ora piada, ora filme de ação, imita tudo quanto é gente no melhor estilo Marcelo Adnet e sua alegria contamina qualquer um que está por perto.

Desde pequeno ele tinha essa habilidade com o humor – sei bem porque morávamos no mesmo prédio e convivemos bastante durante a infância e a adolescência. De lá para cá ele fez um pouco de tudo: foi jogador de futebol em times do interior de São Paulo, vendedor das Lojas Mel, integrou equipes de recreação de hotéis e pousadas e até estrelou um monólogo interpretando personagens e contando piadas – numa época que stand up comedy aqui no Brasil nem engatinhava.

Fausto caracterizado de um de seus personagens e, ao fundo, show do Sidney Magal

Fausto caracterizado de um de seus personagens e, ao fundo, show do Sidney Magal

Até que um amigo o indicou para um trabalho que tinha a cara do Fausto: ser animador em um cruzeiro. Sem falar nenhum idioma além do português nem nunca ter saído do país, ele embarcou para a Itália e começou a trabalhar em um navio da Costa Cruzeiros.

Isso foi há sete anos. Nesse meio tempo ele viajou por 37 países, levou seu irmão André (aka Dedé) para trabalhar junto (um animador e tanto também, pude conferir em um cruzeiro com ele :-)), passou por perrengues com a língua (hoje já domina espanhol e italiano) e até escapou de um incêndio no navio. Saiu da Costa, morou um tempo em Barcelona, depois em Cancún, até que voltou a navegar pela MSC.

Há apenas sete dias a bordo na nova empresa, ainda se recuperando de uma depressão (afinal, comediantes também têm fases difíceis), ele conheceu uma menina na piscina que havia acabado de embarcar. “Eu tinha jurado que não ia me envolver com ninguém tão cedo, mas olhei para aquela menina ali sozinha a e fiquei sonhando em namorar uma gata dessas”. Era a Jacque.

Jacqueline

A Jacque é irmã mais nova de uma das minhas melhores amigas da infância, a Juliana. Lembro dela pequenininha, linda, sempre alegre, carinhosa, mas desde cedo tinha personalidade forte. Anos depois, nos reencontramos no metrô voltando do trabalho e me surpreendi: estava ainda mais bonita, super comunicativa, continuava cheia de atitude, enfim, se tornou um mulherão!

Jacque, de vermelho, dançando e animando a galera do navio

Jacque, de vermelho, dançando e animando a galera do navio

Isso foi no final de 2012, quando ela era recém-formada em Publicidade, trabalhava em uma agência na Faria Lima e aos finais de semana fazia animação em festas infantis. Na época, estava providenciando a documentação para morar um tempo nos Estados Unidos para melhorar o inglês e ter uma experiência fora. Só que por conta de um sorteio, todos esses planos foram por água abaixo – literalmente.

Ela ganhou um vale-viagem em um evento da própria agência em que trabalhava. Como não queria gastar muito, pois estava economizando para ir aos EUA, e nenhuma de suas amigas poderia acompanhá-la, a Jacque resolveu fazer um cruzeiro curto de quatro noites. O roteiro era Santos-Ilhabela-Ilha Grande. Com a cara e a coragem, foi sozinha e assim que chegou ao navio, foi para a piscina enquanto esperava sua cabine ficar pronta.

“Na hora que bati o olho no Fausto, pensei: é ele! Não sei explicar, mas tive certeza de que ele era o homem da minha vida”, conta ela. Para provar, guarda até hoje a mensagem que enviou às suas amigas dizendo isso no momento em que o viu pela primeira vez. “Elas riram e acharam que eu estava ‘viajando’, óbvio”.

O romance

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Depois de muita troca de olhares e altas conversas, Jacque e Fausto estavam oficialmente encantados um pelo outro. As coisas que tinham em comum não paravam de aparecer e a vontade de ficar junto só crescia. Na segunda noite, rolou o primeiro beijo – e tudo escondido, já que ninguém da tripulação pode se envolver com passageiros.

Na quarta e última noite, eles ficaram de se encontrar na festa do navio, só que ele não apareceu. Duas horas da manhã e nada do Fausto. Até que a Jacque resolveu perguntar por ele para uma de suas colegas da animação. “Ué, você não soube? Ele machucou a perna e não tá conseguindo andar!”. A garota se mostrou um verdadeiro cupido e na hora armou um esquema para que os dois pudessem se ver e se despedir.

Apesar de terem trocado telefones, Jacque resolveu não criar muita expectativa e encarou aquilo como o fim. Mas nem deu muito tempo de ficar sofrendo por amor, não. Já no dia seguinte, o Fausto ligou para ela e disse: “O que você vai fazer amanhã? Quero que venha almoçar aqui em casa porque vou te apresentar como namorada para os meus pais”!

Pois é, a paixão de verão subiu a serra! O casal vingou e passou os três primeiros meses se encontrando com frequência – ela ia até Santos para aproveitar os desembarques do navio. E no Carnaval, pouco antes do Fausto seguir rumo a Europa, veio a proposta: vem comigo?

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A essa altura, ela já havia desistido de ir para os Estados Unidos, e a ideia de trabalhar com animação não era nada distante do que ela já fazia aqui no Brasil. Viajando pelo mundo então, melhor ainda. Aprontou a documentação toda e assim que ele a indicou na empresa, ela já estava com tudo pronto para partir.

Mas claro que teve mais um perrengue no meio do caminho. Em sua primeira viagem de avião, Jacque foi deportada em Roma e voltou para o Brasil aos prantos. Foi um momento desesperador, não conseguia falar com o Fausto, não teve como reverter a situação e até hoje não entende qual foi o problema. Somente um mês depois é que pode retornar, e dessa vez desembarcou e reencontrou seu namorado.

Desde então, eles dividem a cabine, as viagens, os shows, o trabalho e a vida. Bem humorados, eles formam uma dupla e tanto e já estão há dois anos e meio namorando. A primeira coisa que me veio à cabeça quando soube foi: como é passar tanto tempo junto? Eles dizem que não é fácil, e que assim como todos os casais, tem dias e dias. “Mas a gente forma uma parceria boa, só de olhar já sabemos o que o outro tá pensando, o que precisa, o que falta”, conta a Jacque.

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Nesse último mês, pude vê-los juntos algumas vezes e, além de ter ficado feliz pela coincidência de ter dois amigos de infância, de universos diferentes, namorando, dá um orgulho enorme ver o rumo que a vida dos dois tomou.

Destemidos, eles se jogaram no mundo com tudo! Se arriscaram em uma nova profissão sem saber os idiomas necessários, superaram medos e inseguranças, mas em compensação viveram coisas que jamais haviam sonhado. E de todas as recompensas, terem se encontrado com certeza foi a melhor delas. ❤

Para encerrar, vou deixar uma pequena amostra do trabalho do Fausto e da Jacque na equipe de animação do MSC Preziosa. E para quem tem interesse nessa profissão, recomendo a leitura dessa entrevista feita com a Jacque.

Gente que viaja :: Sergio de Mendoza

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Sergio em seu jardim. Foto: Débora Costa e Silva

“Se van los montañeros, se van se van”. Essa é a musiquinha que um guia chileno me ensinou a cantar para me distrair das curvas incessantes da estrada que leva ao topo do Valle Nevado, perto de Santiago. Recorro a ela, pois vou contar a história de um montañero que também andou por aquelas bandas do Chile. A vida toda.

Mendoza-Santiago, Santiago-Mendoza. Argentina-Chile, Chile-Argentina. Toda semana era esse vai e vem durante a juventude de Sergio Aguillar Gimenez. Hoje com 92 anos, ele continua com duas casas, uma em cada cidade, mas considera a da Argentina sua fiel morada.

Sua vida era viajar, atravessar a cordilheira e conectar essas duas cidades, fosse de carro, caminhão, micro-ônibus ou até veículos que transportavam 40 passageiros. No início, levava gado de um país ao outro. Depois vieram os trabalhadores que precisavam cruzar a fronteira. E assim seguiu pra lá e pra cá.

A vida na estrada lhe permitiu expandir os horizontes. Sempre foi muito criativo: certa vez pensou que ventiladores fariam sucesso em Mendoza, onde o tempo quente e seco castiga no verão. Então foi lá na capital chilena comprar uma leva para revender e fazer um dinheirinho extra.

Sergio separando as uvas para produzir vinhos

Sergio separando as uvas para produzir vinhos

Cada hora inventava uma coisa. Além de motorista e empreendedor nato, também ganhava a vida como marceneiro e tinha hobbys interessantes: produzia vinho e criava flores híbridas, através do cruzamento de espécies.

Quando conseguia férias ou uma folga entre um trabalho e outro, escapava para a estrada. Veio muito ao Brasil, inclusive, onde morou durante parte de sua infância e tinha parentes e amigos no interior de São Paulo. Foi em uma dessas incursões que conheceu sua prima Nicolina, minha avó paterna.

A prima

A primeira vez que se encontraram foi em 1955. “Ele apareceu de surpresa na casa da minha tia, na Vila Nova Conceição, em São Paulo, procurando por familiares”, lembra minha vó. Anos depois, na década de 80, o Sérgio bateu na porta de sua casa, já no bairro da Saúde, a bordo de um furgão acompanhado de sua esposa Nena, dez anos mais nova.

Sergio e Nina no furgão que tinham para viajar nos anos 80

Sergio e Nena no furgão que tinham para viajar nos anos 80

“Não tinha lugar na casa para eles ficarem, então entrei no carro e os guiei até Mogi das Cruzes, para a casa dos meus pais. O furgão parecia uma Kombi adaptada, não tinha nem onde eu sentar, fui entre os dois bancos da frente”, conta aos risos.

Quando o Sergio fez essa visita, eu já tinha nascido, mas ainda era bebê. Acho que ele chegou a me ver, mas eu só o conheci de fato em 2013, quando fui para Mendoza a trabalho e encontrei uma brecha para ir atrás de seu paradeiro. Minha vó não tinha notícias dele há anos e temia até que já tivesse morrido, por isso pediu que eu o procurasse.

A busca

Ela me deu uma foto do Sergio. No verso escreveu dois endereços que tinha em sua agenda e pediu para tentar achá-lo. Consegui uma tarde livre no último dia da viagem e o fotógrafo Tony Miyasaka, que estava no grupo dos jornalistas, topou me acompanhar na busca.

O portãozinho branco onde fui tocar a campainha na esperança de encontrar o Sergio e... achei!

O portãozinho branco onde fui tocar a campainha na esperança de encontrar o Sergio e… achei!

Fomos de táxi até Godoy Cruz, distrito próximo de Mendoza, e paramos na primeira rua que tinha anotado. Só que o número não existia, então resolvi tocar a campainha no mais próximo.

Ninguém atendeu. A rua, aliás, estava deserta e silenciosa. Pensei até: será que tem alguém vivo por aqui? Na segunda casa, apareceu um cachorro latindo alto e bravo (já fiquei tensa) e a pessoa que nos atendeu não conhecia nenhum Sergio. Na terceira tentativa, demorou para aparecer alguém, mas finalmente nos deram uma informação: ele mora ali, na casa de portão branco.

Já animada, toquei a campainha, com a foto dele em mãos. Depois de alguns minutos, um senhor apareceu na janelinha do portão: era o próprio! Fiquei emocionada! Falei que era neta da Nicolina, do Brasil, e ele abriu o portão para a gente.

A visita

Passamos a tarde inteira lá. Tentei várias vezes ligar para a minha vó no Brasil e não consegui, mas fizemos fotos, o Tony gravou alguns vídeos da nossa conversa, a Nena nos serviu um café da tarde e fomos embora quase de noite.

Foto: Tony Miyasaka

Altos papos na sala de estar. Foto: Tony Miyasaka

Durante esse tempo, ele me contou um pouco de cada viagem que fez. A conversa foi meio atrapalhada – um pouco pelo idioma, um pouco por sua surdez. Mas sua memória ainda estava tinindo e ele vibrava a cada lembrança.

Ele contou que além de ter rodado a América Latina toda e ter visitado muitos lugares no Brasil, foi a Espanha três vezes – uma delas ficou por três meses e também saiu em busca de seus parentes. “O Sergio sempre foi muito família e viajava muitas vezes em função disso, de ir atrás de suas origens”, conta minha avó. Mas foi quando ele me mostrou uma foto dele esquiando que me encantei de vez.

Dois anos depois desse encontro, eu já me esqueci de muitos detalhes da visita, então liguei pro Tony, que me recordou sobre a história do esqui. Pelo o que ele lembra, havia época em que não havia escola de esqui na região de Mendoza, nem equipamentos, e um dos sonhos do Sergio era esquiar. Ele fez que fez que convenceu uns caras do Exército a emprestarem seus esquis para poder brincar um pouco – e guardou essa foto aqui.

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Sergio esquiando. Foto: Arquivo pessoal

A queda

Uma hora paramos a conversa para conhecer seu jardim. Suas flores híbridas florescem por ali, logo ao lado de sua oficina de produção de vinho. Ele inclusive me deu uma garrafa para que eu levasse para a minha vó.

Voltando para a casa, resolvemos fazer uma foto com eles. Só que a Nena não queria aparecer de jeito nenhum. Depois de muito insistir, ela topou e posamos. E aí aconteceu uma das situações mais tragicômicas que já vivi. Comecei a sentir uma resistência, parecia que ela estava tentando se desvencilhar do meu abraço. Me puxava e eu puxava de volta, e depois de umas três vezes fazendo isso, eu percebi que não era ela, mas sim o Sergio que estava desequilibrado e caindo!

A foto pré-queda. Por Tony Miyasaka

A foto pré-queda. Por Tony Miyasaka

Tentei segurá-lo ao máximo, mas ele é muito pesado e a queda foi inevitável. Como foi caindo em câmera lenta, o impacto não foi tão grande, mas pela sua idade esse pequeno tombo já poderia ter causado um estrago. Acostumada com quedas ridículas de amigos da minha idade, confesso: a vontade na hora era rir, pois foi uma trapalhada e, quem diria, justo no momento da foto.

Mas logo percebi a gravidade da situação e fiquei super preocupada. Diz ele que não se machucou, mas vai saber, às vezes mesmo sem sentir a pessoa pode ter fraturado alguma parte do corpo e só descobrir depois. Bom, ele sobreviveu – e estava ótimo quando minha vó finalmente o reencontrou.

O reencontro

Minha vó e seu primo Sergio, em sua casa em Godoy Cruz, em Mendoza

Minha vó e seu primo Sergio, em sua casa em Godoy Cruz, em Mendoza

Quando voltei de viagem, mostrei a minha vó todas as fotos e vídeos. Ela se emocionou muito e me agradeceu. No fim, eu é que tenho que agradecer por ter me dado a chance de viver essa história e ter conhecido uma pessoa tão interessante.

O mais legal de tudo é que, um ano depois, minha vó embarcou para a Argentina e saiu do país pela primeira vez. Sim, ela foi para Mendoza reencontrar o Sergio e a Nena junto com seu outro primo Roni e sua esposa Jandira. Disse que foi emocionante e ficou feliz de ver que ele está melhor de saúde e continua falante e lúcido.

A história do Sergio é inspiradora. Em tempos em que o dinheiro era suado e viajar era tão mais difícil do que hoje em dia, ele fazia de tudo para cair na estrada e seguir em busca de suas origens, de sua família e visitar os amigos. E graças ao pedido da minha vó, pude viver um pouco disso também. Com uma foto na mão, saí em busca de um primo distante e encontrei ainda mais inspiração para continuar viajando.